O começo de uma amizade

Ratos não são animais de estimação muito comuns aqui no Brasil. Por isso, é difícil conseguir ratos de criadores que se preocupem em prepará-los para a vida como animal de estimação. E isso é necessário.

Ratos são animais sociais e aprendem a viver em grupo cedo, na infância. Um criador deve, portanto, estar diariamente em contato com os filhotinhos, desde o primeiro dia de vida. Assim, eles vão aprender a brincar com humanos e a confiar em humanos. Ao fim de um mês e meio, aproximadamente, eles estão prontos para ir para novas casas e tratarão seus amigos humanos como parte de sua família. Passaram pelo que chamamos de socialização.

O mais provável, entretanto, é que eles tenham sido criados para servir de alimento a outros animais (cobras, por exemplo), tenham vindo de criadores que não se importam muito com o desenvolvimento intelectual e social deles, ou mesmo tenham sido obtidos de biotérios que, ao fim de uma experiência, os sacrificariam. Torna-se necessário, então, fazer uma socialização tardia.

Aqui em casa, temos ratos de todas essas origens. Nossas primeiras meninas são Kali, Maya e Sáti. Vieram de um criadouro que as mantinha para servirem de alimento a cobras. Eram muito assustadas e desconfiadas. A Maya não tem a ponta do rabo, provavelmente porque alguém tentou pegá-la do jeito errado (segurar um rato pela ponta de seu rabo vai fazê-lo partir – um ferimento muito dolorido e debilitante para um rato). Nos primeiros dias, a Maya e a Sáti não saíam da toca. A Kali, mais valente, saía rapidamente para apanhar comida e levar para suas irmãs. Depois de um pequeno período de adaptação, começamos a forçá-las a sair conosco, inicialmente em uma sacolinha de crochê, depois no colo. Todos os dias, várias vezes ao dia, um pouquinho de cada vez. Uma vez por dia, saíam para a hora da “jantinha”, quando podiam andar livremente pelo quarto (devidamente preparado para isso) e comer coisas especiais. Em duas semanas, já estavam à vontade conosco. Mas ainda nos viam como amigos, não como membros da família.

Então, pegamos o Odin. Ele veio muito novo de um criador que não se preocupava muito com seu bem-estar. Tanto é que ele estava sozinho com sua mãe (em uma gaiola do tamanho de uma caixa de sapatos), ainda não completamente desmamado, e foi vendido sozinho. Também estava sem a ponta do rabo e com diarreia. Por ser jovem, a socialização foi mais fácil. Em pouco tempo ele já nos considerava família. Mas ainda é chato para comida. Ratos aprendem o que comer na infância e, por ter tido uma alimentação inadequada, provavelmente o Odin passava mal constantemente, o que faz com que ele evite comidas muito diferentes. O lado bom é que ele é louco por ração. Nunca vi alguém gostar tanto de ração.

odin

Odin

Nós pegamos o Odin porque queríamos ratos bem tratados desde a gestação. Estudamos bastante sobre os cuidados necessários para uma reprodução responsável e o resultado foi o fim da solidão do Odin. Odin e Sáti deram origem a cinco lindos meninos e cinco lindas meninas. Você pode saber mais sobre eles na página que descreve o nosso time. Basta dizer que, depois do nascimento deles, a Kali, a Maya e a Sáti mudaram seu comportamento conosco. Passamos a fazer parte da família. Depois de desmamados, os cinco meninos foram viver com o pai. Foi incrível como o Odin os aceitou prontamente. Os seis já moram juntos a quase cinco meses e parecem muito felizes. Tanto os meninos como as meninas são muito dóceis e “despreocupados”. A ponto de nossos vizinhos começarem um estardalhaço com fogos de artifício e todos eles irem à janela para ver (parte da gaiola deles fica próxima a uma janela). Sorridentes.

Recentemente, ficamos sabendo que dois meninos que foram resgatados de um biotério (que seriam sacrificados, porque a experiência havia terminado), precisavam de um lar. Entre serem resgatados e nós ficarmos sabendo, eles ficaram sob os cuidados de pessoas que, ainda que bem intencionadas, tinham pouco conhecimento para lidar com eles. Adotamos Phobos e Deimos. Quando chegaram em casa, o Deimos estava sem a ponta do rabo (é… isso é muito comum com pessoas que não sabem lidar com ratos), o Phobos tinha a ponta do rabo quebrada (paralisada no final, até hoje) e estavam com pneumonia. Tossiam, espirravam muito e tinham febre. Isso fez com que adiássemos o processo de socialização, porque sem antibióticos, teriam morrido em poucos dias. E dar antibióticos a ratos já traumatizados a vida toda em um laboratório não é fácil. Nem para nós, nem para eles. Mas acho que principalmente para eles. É terrível ser obrigado a fazer algo que não se quer; para eles, não há como explicar que o remédio é necessário. Ainda que fosse possível, não é fácil superar uma vida inteira de tortura. Estão conosco há dois meses. Lidamos com eles com menos frequência do que com as outras crianças, para evitar que se estressem demais. Mas é necessário que todos os dias, pelo menos um pouquinho, eles convivam com a gente. Eles começam a dar sinais de que se sentem mais seguros. Mas esse será um longo processo de socialização.

Para a socialização de recém chegados, é importante observar o seguinte. A gaiola deve ter bastante espaço, mas não muita coisa. Inicialmente, você deve se fazer mais divertido do que a gaiola. Deixe que se adaptem por alguns dias, sem muito contato com você. A gaiola deve ser percebida como um lugar seguro, um refúgio para seus ratos. Depois desse período, ofereça guloseimas (próprias para ratos!) em sua mão para que venha até você. Abra a gaiola e coloque o que você for dar a eles na palma de sua mão. Não ofereça comida através das grades ou segurando com a ponta dos dedos. Ratos enxergam pouco e seu dedo vai estar cheirando a comida. Ele pode se confundir e morder seu dedo. Quando estiver mais seguro, leve-os para um breve passeio. Uma roupa com vários bolsos largos é ótima para isso. Eles podem até ficar em seu ombro, mas lembre-se de que esta é uma posição vulnerável para eles e podem ficar com medo. Os bolsos (ou um capuz) servem para que eles se escondam quando se assustarem. Criado esse vínculo, é hora de deixá-los passear por conta. Prepare um dos cômodos de seu lar para que fique seguro para ratos. Isso significa que não haja buracos, substâncias tóxicas, animais perigosos (como aranhas, cães, gatos, crianças ou ratos não domesticados), fios elétricos e armadilhas em geral (coisas que possam cair sobre seu rato e machucá-lo, por exemplo). Eles precisam ficar fora da gaiola por mais ou menos uma hora por dia, de quatro a cinco vezes por semana. Além de ser a hora de correr, pular e brincar, esta é a hora de você brincar com eles. Pegar, fazer cócegas na barriga, esfregar as costas, tudo isso cria um vínculo afetivo entre vocês. Ratos valorizam muito esse vínculo. Por mais que você encha a gaiola deles de brinquedos e coisas para se divertirem (o que é necessário após o período de socialização), eles sempre vão preferir sair nesses momentos, pois sabem que você estará lá para brincar com eles. Durante todo esse tempo, converse com seu rato. Assim ele vai, aos poucos, se acostumar com sua voz.

Ratos são companheiros formidáveis, mas precisam de sua companhia e atenção.

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11 respostas a O começo de uma amizade

  1. Elisa diz:

    Muito legal a adoção dos dois meninos! São todos muito fofos 🙂

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  2. Juliana diz:

    Adotei a pouco duas meninas ratinhas estou amando uma é um pouco tímida mas aos poucos vamos levando. A gaiola e bem grande . Adorei aprender um pouco sobre eles

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  3. Débora Patrícia Sisconeto diz:

    Amei o post. Tenho dois bebês há pouco mais de uma semana e em pouco tempo sinto que são animais muito carinhos e meigos. Quero ter outros no futuro.

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  4. Lígia diz:

    Que legal, não conhecia a origem dos seus ratos mais novos. Espero que se adaptem bem! 🙂

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  5. Elaine diz:

    Boa tarde! Adorei seus posts. Entendo que sejam observadores e estudiosos e gostaria de lhes pedir ajuda. Eu tinha 2 ratos irmãos muito tranquilos e recebi um terceiro rato com histórico de dificuldades de socialização com outros ratos. Não consegui socializa-los mas fiquei com ele como rato solo. Um dos ratos irmãos faleceu há 10 dias e gostaria de tentar juntar os 2 que agora estão sozinhos. Mas preciso de ajuda. Já vi muitos videos e textos na internet, mas sinto que cada rato possui uma personalidade que deva ser tratada de forma diferente. Podem me ajudar? Podemos conversar via Skype ou Whatsapp?

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  6. Ângela diz:

    Adorei o site, tenho uma hamster mas gostaria de saber mais sobre ratos em geral. Acho que nao tenho um desse mais pelo espaço, você já falou sobre as gaiolas? Enfim se puder fazer um texto sobre a diferença entre ratos e hamsters, agradeço! Beijoos e obrigada

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    • Olá Ângela. Sim, nós falamos um pouco sobre gaiolas em Lar Doce Lar. Ratos precisam de um pouco mais de espaço do que hamsters. Não só porque são maiores, mas também porque precisam viver com outros ratos. Hamsters vivem bem sozinhos, mas ratos não. Na próxima semana, vou falar um pouco sobre a história dos ratos, como eles foram domesticados. Em seguida, aceitamos a sua sugestão e vamos falar sobre as diferenças entre ratos e hamsters. Aqui em casa, já tivemos um hamster sírio, dois anões russos e quatro camundongos, antes de termos ratos. São experiências completamente diferentes e podemos dividir essa pequena vivência com você e com outros leitores. Fique ligada! Obrigado da sugestão.

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