Algumas diferenças entre roedores de estimação

Por Luiz Henrique e Aline Pêgas

O post de hoje foi uma sugestão de Ângela, uma leitora deste blog. Em um comentário, ela sugeriu que falássemos um pouco sobre diferenças entre ratos e hamsters. Resolvemos falar sobre roedores de estimação – porquinhos-da-índia, chinchilas, esquilos-da-mongólia, hamsters, camundongos e ratos. Não vou falar sobre coelhos. Coelhos não são roedores. Eu vou começar com um pouco das diferenças biológicas desses bichinhos e depois a Aline falará sobre as diferenças de convivência e de trato.

Quem é quem?

Antigamente, as divisões de classificação da biologia levavam em conta coisas como o aspecto físico dos seres vivos, sua distribuição geográfica, hábitos reprodutivos, etc. Hoje, temos à nossa disposição uma ferramenta poderosa: a biologia molecular, mais especificamente, a análise genética. O problema é que, assim que começaram a vir os resultados dessas análises, muitos dos “parentescos” dados como certos, estavam errados. Uma analogia um tanto grosseira é a seguinte. Imagine que você esteja tentando determinar, em um dado grupo de pessoas, quem é filho de quem, primos, etc., apenas vendo se essas pessoas são parecidas. É claro que com muito estudo e treino, alguém pode chegar a uma boa chance de acerto. Mas não há nada como um teste de DNA. Hoje, podemos realizar “testes de paternidade” para verificar o parentesco das espécies. É claro que isso é muito mais complicado que um teste de paternidade convencional. O código genético muda com o tempo, algumas partes mais rápido do que outras, algumas são perdidas, enfim. De uma geração para outra, de pai para filho, a análise é relativamente simples. Mas se há milhares de anos de modificações acumuladas entre os indivíduos, a análise se torna um quebra-cabeças sem fim. Não só a obtenção de boas sequências de genes é difícil. Esta análise exige matemática de ponta e capacidade de processamento de dados de ponta. Todos os meses são publicados artigos científicos de pesquisadores que melhoram estas técnicas. Com técnicas melhores, é frequente que a árvore genealógica da vida seja modificada. E roedores são alvo de polêmicas. Parece que estamos próximos de um acordo sobre sua árvore genealógica, mas debates ainda acontecem. Só para se ter uma ideia, em 1996 um grupo de pesquisadores publicou, na revista Nature, um artigo em que afirmavam que o porquinho-da-índia não é um roedor. Com o tempo, o assunto foi resolvido. Assim, vou falar sobre o parentesco de roedores, como é conhecido hoje (Cox, Hautier – Evolution of the Rodents: Advances in Phylogeny, Functional Morphology and Development, Vol. 5, Cambridge University Press, 2015).

Divide-se os roedores em três grupos, os que são do tipo dos esquilos, os que são do tipo do porquinho-da-índia e os que são do tipo dos ratos, sendo que estes dois últimos são mais próximos em parentesco entre si do que dos esquilos. Não há, em nossa lista, ninguém que seja do tipo dos esquilos. Vamos começar com os do tipo do porquinho-da-índia.

O porquinho-da-índia

Não é porquinho, nem vem da índia. Mais correto seria chamá-lo de capivarinha-dos-andes. É parente próximo da capivara e originário de regiões montanhosas daqui da América do Sul. Os cuidados com eles tem de levar isso em consideração. Na vida selvagem, vivem em pequenos grupos. Portanto, se sentem mais confortáveis se viverem acompanhados de outros porquinhos-da-índia. A cordilheira dos Andes é um lugar frio e seco. Por isso, porquinhos-da-índia são muito sensíveis ao calor e à umidade. Acima de 25° C, podem passar mal. Alimentam-se de vegetais frescos e folhas. As rações para porquinhos-da-índia levam em conta as suas necessidades nutricionais e complementos como grãos e frutas só devem ser dados de vez em quando, como um agrado. A exceção é a vitamina C. Eles não conseguem produzir vitamina C e precisam obtê-la de alimentos. Apesar das empresas colocarem suplemento de vitamina C na ração, ela se deteriora rápido e acaba não sendo consumida o suficiente. É bom colocar um pouco na água. Se bem tratadas, vivem de 5 a 7 anos.

A chinchila

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Banana, chinchila do Lucas Silva

A chinchila é um parente mais próximo do porquinho-da-índia do que dos outros roedores de estimação de que estamos falando. Também é originária dos Andes, mas de regiões ainda mais frias e ainda mais secas. Por isso, é importante manter a temperatura ambiente não muito alta, abaixo dos 25°C. No verão, caso não haja ar condicionado na casa, muito cuidado deve ser tomado, colocando garrafas com gelo, coisas do gênero. Também, para evitar problemas nos pelos, devido à umidade, deve-se colocar à disposição da chinchila uma “banheira de pó”. Devem tomar banho de pó de duas a três vezes por semana, de dez a vinte minutos. É importante que a banheira seja oferecida à chinchila apenas nestes momentos. Se ficar o tempo todo com ela, há o risco de que ela exagere nos banhos, causando irritação ocular e respiratória. Chinchilas têm hábitos alimentares parecidos com os dos porquinhos-da-índia. Apesar disso, há rações específicas para elas. Normalmente, rações para coelhos ou porquinhos-da-índia são pequenas demais para as chinchilas manejarem. Cada bichinho tem sua ração própria. Chinchilas vivem bastante. Algumas podem chegar a 20 anos.

Agora passaremos a falar sobre os roedores do tipo dos ratos. Temos o grupo dos hamsters e o outro grupo, que contém o esquilo-da-mongólia, os camundongos e os ratos.

Hamsters

Quando uma pessoa compara os roedores do tipo dos ratos, a primeira diferença que nota entre os hamsters e os outros é que hamsters quase não têm rabos. Na minha opinião, esta não é a principal diferença. A principal diferença é que eles têm um saco dentro da bochecha, onde podem guardar coisas. Quando a gente para pra ver um hamster guardando grãos ou material para o ninho dentro da bochecha, a primeira impressão é a de que ele vai explodir. É impressionante ver quanta coisa cabe ali. Estes sacos permitem que hamsters estoquem coisas com facilidade. Já foi encontrada uma toca com 90 kg de grãos estocados. Por causa disso, tendem a ser mais independentes de outros hamsters levando, em geral, uma vida solitária. Apesar dos integrantes do grupo dos ratos serem onívoros (comerem de tudo), o fato de poderem estocar comida faz com que prefiram os não perecíveis. Raramente comem insetos, minhocas ou folhas verdes. A base de sua alimentação é de grãos e raízes. Há várias espécies de hamsters. Os maiores são os sírios dourados, com aproximadamente 120 g, quando adultos. Além dos sírios, há os anões, com aproximadamente 40 g. Os anões mais comuns são o anão russo Campbell, o anão siberiano (também chamado anão russo), o anão chinês e o Roborovski. Os anões Campbell e siberiano são muito parecidos entre si. Algo importante a ser dito é que pequenos roedores usam a cauda para ajudar a regular sua temperatura. Como hamsters quase não têm cauda, são muito sensíveis a variações de temperatura.

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Hamster sírio

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Vick, do Lucas Silva

Originários da Síria, são vermelho-alaranjados, com a barriga branca ou cinza-clara. Depois que foram domesticados, surgiram muitas variações de cor, como o preto, marrom-escuro, rosa, bege, albino, ou mesmo o panda. Eles têm hábitos solitários e devem ser criados isolados. A urina deles é bem concentrada e tem um cheiro forte. Vivem por cerca de 3 anos.

 

 

 

 

Campbell

Originários da Mongólia, são marrons com uma faixa preta nas costas. Também têm hábitos solitários e devem ser criados isolados. Vivem por cerca de 2 anos.

Anão siberiano (Djungarian)

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Zoe, nossa bolinha de pêlos

Originários da Rússia, são marrons, um pouco acinzentados nas costas, com uma faixa preta bem no meio e faixas mais escuras laterais, com a barriga branca. O curioso é que eles ficam brancos no inverno. São mais dóceis e vivem em colônias. Apesar de não serem exatamente sociais, podem ser criados com companheiros. Por exemplo (e ao contrário dos outros hamsters), o macho ajuda a cuidar dos filhotes. Vivem por cerca de 2 anos.

 

 

Anão Chinês

Originários do norte da China, são marrons, com uma faixa preta nas costas. É fácil diferenciá-los dos outros hamsters, porque têm uma pequena cauda. Também podem ser criados com companheiros, mas não são muito sociáveis. Vivem por cerca de 2 anos e meio.

Roborovski

São originários do sul da Rússia, Mongólia e norte da China. Esses fogem um pouco à regra. São menores, com cerca de 25 g, quando adultos. São sociais, isto é, precisam viver na companhia de outros da mesma espécie. Têm uma alimentação mais variada, necessitando de mais proteína animal. A urina deles é a mais concentrada de todos os que falamos, por viverem em uma região onde conservar água é essencial. Chegam a viver por 4 anos.

Os outros do tipo dos ratos

Neste grupo, temos os esquilos-da-mongólia (que não são esquilos), os camundongos e os ratos. Com relação ao parentesco, camundongos e ratos são mais próximos entre si do que esquilos-da-mongólia. Não têm saco dentro da bochecha, o que faz com que tenham uma alimentação mais oportunista (apesar de estocarem um pouco de alimento) e dependerem mais uns dos outros. Todos estes são sociais e precisam de companhia da mesma espécie para serem felizes. Também, têm rabos longos.

Esquilos-da-mongólia (gerbil)

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Gerbils da Janaina Eller

São originários da Mongólia. São chamados de gerbil, rato do deserto e rato da areia. Vivem em regiões desérticas e sofrem em ambientes úmidos. Umidade acima de 50% já é prejudicial para eles. Assim, precisam de “banhos de areia”. São excelentes cavadores e saltadores. Quando adultos, pesam entre 70 g e 150 g. Vivem, em média, por 3 anos, mas podem chegar a 5. É essencial que tenham vários acompanhantes.

 

 

 

Camundongos

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Joana Dark, nossa fofinha

Nossos companheiros há 10.000 anos. Algumas pet shops se referem a eles como topolinos mas, se não me engano, este é um nome de um tipo específico de camundongo doméstico. São pequeninos, chegando a não muito mais do que 40 g, quando adultos. Apesar do pequeno tamanho, seu odor é forte. Fêmeas, nem tanto, mas a urina dos machos tem um odor fortíssimo. Isso deve ser levado em conta, por quem pretende ter camundongos. São necessários limpeza frequente e ambiente ventilado. São sociais, mas machos podem ser agressivos contra outros machos. Vivem por cerca de 2 anos.

Ratos

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Odin, sendo magnífico

Emfim, o rato norueguês. Como dito em outros posts, eles são originários da Ásia. São grandes, podendo chegar a 800 g, quando adultos. São muito dóceis e sociais, precisando de companhia de outros da mesma espécie para serem felizes. São os nossos ratos de casa. Vivem por cerca de 3 anos.

 

 

… Aline assumindo o post

Agora, eu vou contar pra vocês um pouco da minha experiência com outros roedores. Fora os ratos, eu tive dois anões siberianos e quatro camundongos.

Alexandre o Grande e Joana Dark

Nós tivemos primeiro a Joana. Foi aquela história, eu estava passeando na petshop e me apaixonei. A Joana era uma coisa de outro mundo, a melhor camundonga que já viveu nesse planeta. Quando queria atenção, chamava com uns squicks baixinhos. Quando eu olhava, lá estava ela em pé na gaiola. Fazia ninhos super elaborados. Eu não sabia que de serragem e papel dava pra fazer estruturas tão complexas. Tinha até um senso de estética, ela colocava pedaços de barbante pra enfeitar o bebedouro. Em pouco tempo eu descobri que ela precisava de companhia. Compramos o Alexandre e levamos no veterinário pra castrar. A Joana ficou um pouco receosa no começo, mas o Alexandre era apaixonado por ela. Eles viram juntos durante toda a vida.
A Joana era muito ativa. Eu levava ela pra brincar no meu quarto e ela explorava tudo. Subia num estrado de cama que ficava encostado na parede, desaparecia num canto do quarto e aparecia no outro. Uma coisa que é bastante clara pra mim é que ratos brincam com você, e camundongos brincam em você.
O Alexandre era muito carinhoso com a Joana, eu gostava muito de vê-los cuidando um do outro. Os dois eram muito inteligentes. Eu sempre tentei bolar brincadeiras para entretê-los. Uma das coisas era colocar um espaguete transversalmente à grade superior da gaiola. A Joana girava o macarrão com a mãozinha e puxava pra baixo. Outra coisa que eles faziam era abrir caixinhas de fósforo com comida dentro. Eles empurravam um pouquinho de um lado e puxavam um pouquinho do outro. Abriam em segundos.

Cleópatra e Catarina, a Grande (carinhosamente chamada de Cat)

A Cat e a Cléo também vieram de uma petshop. A nossa experiência com elas foi muito diferente da que tivemos com a Joana e o Alexandre. A Cat era uma ávida atleta da rodinha, o esporte da Cléo era comer mesmo. As duas sempre foram muito assustadas, e tinham medo de qualquer barulho. Demorou um pouco para se acostumarem com a gente, mas depois de um tempo vinham pegar comida na minha mão. Ainda assim, elas desapareciam diante de qualquer movimento brusco.
Eu aprendi a tratá-las de maneira um pouco diferente. Montei uma super gaiola, com várias caixas organizadoras ligadas por tubos de pvc. Comecei a interagir com elas sempre nos mesmos horários e com cuidado pra não fazer barulho. Acredito que elas foram muito felizes, e observá-las sempre me deixou mais feliz. Assim como os hamsters, camundongos são animais que não vão interagir muito com você, mas valem cada segundo.

Zoe e Glia

Quando eu trouxe elas pra casa achava que viveriam juntas, mas elas brigaram no caminho e tive que separá-las. Essas duas bolinhas de pelo me trouxeram muita alegria. Ao contrário dos ratos, elas não gostavam muito que eu ficasse pegando no colo e fazendo cócegas. Do jeito delas, elas gostavam de me ter por perto. A Zoe gostava de massaginha nas costas. A Glia era mais do tipo não me encoste, mas fique aqui conversando comigo. Uma vez, nós viajamos por dois dias e deixamos elas sozinhas em casa com bastante comida e água. Quando voltamos, a Zoe ficou uma semana sem falar com o Luiz. Quando ele chegava perto, ela virava de costas.
Eu também preciso contar um pouco das artes delas. Eu fiz dois saquinhos de flanela e pendurei nos viveiros. A idéia era que elas entrassem no saquinho e ficassem lá penduradinhas. Eu achei que seria legal, mas elas tinham outros planos. Para incentivá-las a entrarem no saquinho, eu coloquei algumas sementes de girassol lá dentro. Algumas semanas se passaram e elas tiveram sucesso completo em me treinar para colocar girassol no saquinho. Quando eu abria a porta do quarto delas de manhã, a Glia ia direto no saquinho. Ela balançava ele com a mãozinha e apontava dentro com o focinho, até eu colocar girassol.
São muitas histórias pra contar, e o texto está ficando comprido. A minha dica é que o companheiro humano ideal para um hamster siberiano é alguém que saiba respeitar o espaço dele e tenha como dar atenção sempre.

Eu gostaria de agradecer a todos que mandaram suas fotos para compor esse post. Seus filhos são lindos.

20120131_zoe_01

Tchau, gente!


Nós não temos porquinhos-da-índia, chinchilas e gerbils, mas já tivemos hamsters (sírios e anões siberianos) e camundongos, além dos ratos. Então, para escrever sobre porquinhos-da-índia, chinchilas, gerbils, anões chineses e anões Roborovski, tive que consultar fontes. Para os três primeiros, consultei o livro

Mitchell, Tully – Manual of Exotic Pet Practice, Saunders-Elsevier, 2009.

Sobre hamsters chineses e Roborovski, encontrei um site que parece ser interessante: o Southern Hamster Club.

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Sobre Aline Pêgas

https://alinepegas.com.br
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2 respostas a Algumas diferenças entre roedores de estimação

  1. Bianca Alves diz:

    Excelente matéria, parabéns pelo trabalho ^^
    Tem me ajudado muito a sempre fazer nossos bichinhos o mais felizes possivel ❤

    Liked by 1 person

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