Kung Fu Rato

Por Luiz Henrique

Ratos adoram brincar de “lutinha”. Quando crianças, é uma das suas brincadeiras favoritas. Mas como saber se é brincadeira ou se é sério? Neste post, vamos contar um pouco do que se sabe sobre este comportamento.

Para donos desavisados, pode ser um pouco chocante ver aqueles dois meninos, que sempre se deram tão bem, se embolando em um Jiu-jítsu meio ninja. Muitos ficam preocupados e acabam separando os meninos. Isso é muito triste porque, na verdade, eles estavam brincando e fortalecendo laços de amizade. Este não é só um comportamento normal, é um comportamento importante para a saúde social deles. Por outro lado, quando ratos brigam de verdade, a coisa pode ficar muito séria. Se não forem separados, o desfecho pode ser uma tragédia. O lado bom disso é que a brincadeira de luta e a luta de verdade são bem diferentes e é possível reconhecê-las com facilidade, se prestarmos atenção.

As brincadeiras de lutinha começam cedo na infância e tendem a diminuir na fase adulta. Quando adultos, machos continuam a brincar, mas com menos frequência. Fêmeas adultas quase nunca brincam. As regras são simples. Ganha quem esfregar o focinho na nuca do outro. Pode dar uma mordiscadinha, pode lamber, mas não vale morder. Há várias estratégias para defender a nuca e lançar contra-ataques. Quando crianças, a mais comum é ficar embaixo do atacante, de barriga para cima. Pronto, nessa posição é difícil para o atacante lamber a sua nuca. À medida que crescem, as estratégias melhoram. Outra maneira de defender a nuca, facilitando um contra-ataque (lambendo a nuca do oponente) é ficar em pé, na frente do atacante. Normalmente, o atacante reage ficando em pé também e os dois começam a se segurar, como se estivessem “boxeando”. Uma outra possibilidade de defesa (para os faixa-pretas) é virar-se de lado, chutar o adversário para que ele se desequilibre e se jogar sobre ele, lambendo assim, sua nuca. Para o Thor, a coisa é séria. Já vi ele dar um salto mortal lateral e cair atrás do Tyr, só para não ter sua nuca lambida. O Tyr ficou olhando para ele com uma cara de – “nossa, que exagero”. Apesar de todas essas táticas e estratégias, existem algumas constantes no comportamento. Em primeiro lugar, os pelos não ficam eriçados. Em segundo lugar, não há mordidas sérias, no máximo beliscões, que não machucam. Por último, o alvo é a nuca. Eles se colocam em posições vulneráveis, só para não terem a nuca lambida. Por exemplo, aquela posição de luta de box deixa a face do rato muito vulnerável a mordidas. Numa briga séria, um rato nunca ficaria naquela posição.

Em uma colônia com machos adultos, há um macho dominante. Os seus subalternos até brincam de lutar entre si, mas preferem brincar com o dominante. É como se a luta reafirmasse a amizade e a lealdade do subalterno ao dominante. Nessa relação, é comum o subalterno adotar a estratégia mais infantil de ficar de barriga para cima. Convenhamos, é uma demonstração de confiança. É raro, mas o dominante pode começar uma lutinha com um subalterno que esteja meio saidinho para colocá-lo em seu lugar, amigavelmente. Entre ratos, uma vez estabelecida uma hierarquia, ela dificilmente muda. Não é comum ratos desafiarem a autoridade estabelecida.

A história é outra se a briga é para valer. Os pelos se eriçam. Entre machos, o atacante se alinha lateralmente ao atacado, com a finalidade de morder a lateral ou a parte de trás de suas costas. Como defesa, o atacado vai tentar morder a face do atacante. Focinho, olhos, orelhas, o que estiver na frente. Se não tiver sucesso no contra-ataque, pode ter qualquer parte do corpo mordida. Estes podem ser ferimentos profundos e até mesmo fatais. Uma fêmea, quase sempre, tenta morder a face do oponente.

Em resumo, são três características principais que diferenciam uma brincadeira de lutinha de uma briga. Em uma briga, os pelos ficam eriçados. Em uma brincadeira, não. Em uma brincadeira, não vale morder. Em uma briga, vale tudo. Em uma brincadeira, o alvo é a nuca – atacar e defender a nuca. Em uma briga, os alvos são o traseiro e a face, principalmente.

Eu li uma vez que, se tem sangue, é pra valer. Isso é meio verdade, mas muita atenção tem que ser dada ao assunto. O fato é que os membros de uma família, apesar de se amarem, nem sempre se dão bem o tempo todo. Vou contar um episódio ocorrido aqui em casa, entre o Thor e o Frey.

Thor e Frey são irmãos, nascidos aqui em casa, e sempre se deram bem. Num belo dia, os meninos estavam passeando soltos no quarto, como de costume (que fazemos quase todas as manhãs). O Thor estava meio atacado e brincava freneticamente com todos. O Frey sempre foi calmo e começou a perder a paciência com o irmão. A brincadeira de lutinha começou a ficar séria. Em um determinado ponto, o Thor mordeu a barriga do Frey, que sangrou um pouco. A briga foi apartada e levamos todos para a gaiola. Fiquei muito preocupado com o desfecho daquilo. Se precisasse separar os meninos, seria muito triste para vários deles. Não sabia nem quem iria morar com quem. Por sorte, naquele dia pude ficar em casa e acompanhar o desenrolar da história. O que ocorreu em seguida foi curioso. Primeiro, todos os meninos começaram a ignorar o Thor. Se ele ia para dentro de casa, os que estavam lá, saíam. Se estavam dormindo na rede e o Thor chegava, todos saíam. Ele passou o dia sozinho. No final da tarde, o Thor foi até o Frey e começou a lamber sua ferida. Passaram o resto do tempo dormindo juntos. No final da noite, a harmonia estava restaurada na gaiola. Nunca mais houve qualquer briga entre eles.

O que quero mostrar com essa história é que as relações entre ratos de uma mesma gaiola não são simples. Eles se amam, discutem, brigam, fazem as pazes, etc. Nenhuma briga, é desejável, um pouco de briga é saudável e muita briga é perigoso. É nossa responsabilidade zelar pela segurança e pelo bem estar de nossos filhotes. Se eu tivesse separado Thor e Frey ao primeiro sinal de briga séria, teria destruído um lar. Mas eu conheço os dois e sei que não brigariam pra valer. Para evitar que o pior aconteça, precisamos estar atentos ao comportamento deles. Entre ratos também existe bullying, que pode ter efeitos devastadores sobre a vítima. Atentar para essas coisas e garantir o bem estar físico e psicológico deles é nossa responsabilidade. Insisto nisso. Se você não pode, ou não quer assumir essa responsabilidade, é melhor que não tenha ratos.

Para terminar, quero dar uma dica. Durante o texto, argumentei que a brincadeira de lutinha é uma maneira de criar e manter vínculos afetivos entre ratos. Se você tem ratos bem socializados e quer demonstrar afeto a eles, uma boa maneira é brincar de lutinha. Finja que sua mão é um rato. Tente esfregar um de seus dedos na nuca deles. Segure-os de barriga para cima, contra o chão (ou onde quer que estejam), como se estivessem brincando com outro rato. Fuja com sua mão. Aqui em casa essa brincadeira é festa e geralmente acaba em cócegas na barriga. Eles parecem se divertir bastante. Eu me divirto.


Para saber mais:

Whishaw, Kolb – The Behavior of the Laboratory Rat, Oxford University Press, 2005.

S. Pellis, V. Pellis – Play-Fighting Differs from Serious Fighting in Both Target of Attack and Tactics of Fighting in the Laboratory Rat Rattus Norvegicus, Aggressive Behavior (1987) 13:227-242.

Play-Fighting in Male Norway Rats.

 

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13 respostas a Kung Fu Rato

  1. David diz:

    Parabéns pelos artigos ! Muito bom !

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  2. Pingback: Passeando na Gaiola da Mamãe | Rato de Casa

  3. Thais diz:

    Olá,poderia me ajudar.Meus twisters fazem muito isso,um joga o outro no chão e mordisca e eles emitem um som,parecendo um choro.
    Isso pode ser considerado brincadeira mesmo?

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  4. Pingback: A descoberta do mundo | Rato de Casa

  5. Alissia diz:

    Oi! Eu preciso de ajuda, meus dois ratos irmãos começaram a brigar muito. Muninn sempre apanhava, ficava cheio de cascões na lateral esquerda do corpo, como pequenos machucados, mas mesmo assim eu mantive os dois juntos numa esperança de que eles melhorassem, apartando brigas na gaiola quando se fazia necessário. Porém, semana passada o Muninn apareceu com a orelha rasgada e eu fiquei assustada. Como reflexo, os separei, Huginn ficou na gaiola grande e pus Muninn numa gaiola menor enquanto se recuperaca do machucado, entretanto essa gaiola em questáo era uma gaiola pequena demais para um rato, e eu, com ciencia disso, resolvi procurar um novo dono para o Huginn.
    Eu continuava tentando socializar com o Huginn, mas ele chegou a me morder pra valer e se mostrar muito agressivo, não deixando que eu fechasse a gaiola.
    Muito que bem, o dia de ir pra nova dona chegou, ele foi posto numa gaiola maior, mas está mordendo a nova dona (chegou a tirar sangue dela), e é provável que ela me devolva o Huginn.
    Além disso, o Huginn começou a roer a própria causa. Sei que a agressividade e o fato de roer a propria causa são sinais de estresse. Gostaria de saber o que você me sugere fazer, o que pode ter causado esse estresse no Huginn e o que eu posso fazer pra ajuda-lo.
    Uma veterinaria disse que talvez comprar uma gaiola maior fosse resolver o problema, quero montar meu próprio viveiro com aramado, mas por enquanto ainda não tenho dinheiro, por isso mantenho eles soltos por 4, 5 horas, gostaria de saber se é uma boa alternativa, provisoriamente, eles brigam inclusive soltos.

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    • Alissia diz:

      Cauda*
      Quis dizer que rói a própria cauda

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      • Oi Alissia. Pelo que você me conta parece que as brigas são sérias mesmo, infelizmente o melhor nessa situação é separá-los. A gaiola pequena com certeza gera muito estresse, e deixar soltos não resolve o problema. A gaiola grande não é só uma questão de espaço, ela também é um lugar que eles têm como seguro. Se ele não tiver um lugar bom onde ele se sente protegido não vai se acalmar. Eu sugiro que você coloque cada um na sua gaiola, ambas de tamanho apropriado. Eles vão precisar de muita paciência, amor e carinho. Nunca castigue eles quando se comportarem mal. É suficiente falar duro com eles e ignorar por alguns segundos. Lembre-se que normalmente eles mordem quando sentem medo, mas pode ser que ele seja agressivo mesmo. Dê uma olhadinha nesse post: https://ratodecasa.wordpress.com/2016/09/30/ele-me-mordeu/

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        • Alissia diz:

          Huginn voltou pra casa depois de mais alguns acessos de raiva. 😦
          Tenho medo do Huginn acabar ficando de lado por causa do comportamento dele, as vezes ele esta andando pacificamente na cama enquanto mexo no celular, quando do nada me senta os dentes. Quando voltou estava tudo bem, ele estava com um pouco de medo por causa da mudança de ambiente, mas hoje voltou a pegar confiança e fez um belo estrago na minha mão. Queria que ignorar desse certo, mas ele me ignora primeiro, nem me da oportunidade.

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  6. Hemily Christie Araújo de Souza diz:

    Amei seu artigo. Mas não achei nada sobre gritos. Os meus sempre tem esses ataques, porém é sempre o alfa que ataca os outros dois. E quando isso acontece, eles até gritam. Mas nunca os machucou. Devo me preocupar? Lembrando que isso é constante. Todos os dias! Estou um pouco perdida. Se puder me ajudar, agradeço desde já.

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  7. Ana Catarina Aranas diz:

    Ola. Ótimo texto. Queria tirar uma dúvida, meus ratos parecem brincar bastante. Porém parece que um não gosta muito de brincar e foge… e quando brinca chora, faz barulhos.

    Eles estão brigando ou brincado?

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