Ratos em comunidade

Por Luiz Henrique

Muitos de nós já lemos ou ouvimos falar que ratos são animais sociais. Mas o que isso significa, exatamente? Hoje, vamos ver um pouco sobre a estrutura e organização social dos ratos.

Os que leem os textos desse blog com frequência devem ter notado que sempre faço distinção entre o comportamento dos ratos selvagens, dos de laboratório e dos de estimação. Hoje, a distinção será um pouco diferente. O que ocorre é que ratos, selvagens ou não, mudam seu comportamento de acordo com o ambiente em que vivem. Um dos principais fatores que influencia seu comportamento social é a densidade “ratográfica”, ou seja, quantos ratos vivem em uma determinada área. Quanto a isso, temos o comportamento de baixa densidade, que acontece, por exemplo, em regiões rurais, onde há bastante espaço e poucos ratos, e o comportamento de alta densidade, como o que acontece em regiões urbanas, com muitos ratos vivendo em um espaço apertado. É importante saber um pouco sobre isso, porque podemos simular estes comportamentos com poucos ratos em viveiros grandes ou com muitos ratos em gaiolinhas pequenas. E eles vão adotar comportamentos diferentes, que podem determinar, entre outras coisas, o nível de agressividade entre eles. O principal ponto a ser observado aqui é que a estrutura social dos ratos é flexível – e podemos usar isso a nosso favor para oferecer uma vida ainda mais feliz aos nossos amigos.

No campo há muito espaço. Um rato pode ir para uma região onde haja comida e água, longe de rivais com quem ele tenha que dividir o que conseguir. Mas se você for um rato macho, vai querer ter fêmeas por perto. Se você for uma fêmea, é sempre bom poder contar com a proteção de um ratão grande e forte. Assim, fêmeas têm territórios relativamente pequenos, parcialmente superpostos ao de outras fêmeas. É bom ter vizinhas que lhe avisem de perigos, caso apareça algum. Machos têm territórios maiores, que englobam territórios de várias fêmeas (por volta de seis, em condições ideais) e que não sobrepõe territórios de outros machos. É claro que eles são curiosos e acabam passeando um pouco pelo território do vizinho, quando ele não esteja olhando. Quando um vizinho conhecido (com cheiro conhecido) encontra outro nas imediações da fronteira entre os territórios, se cumprimentam cordialmente e cada um volta para seu domínio. Ratos não são de brigar por qualquer coisa. Mas se o rato é desconhecido, ou se comporta como se quisesse se apoderar daquele território, é batalha na certa. Que pode ser até a morte, se o invasor não se retirar. Um dos perigos de se ter um invasor em suas terras é que ele pode matar seus filhotes. É claro que a fêmea vai tentar defender seu ninho, mas machos são maiores e mais fortes. Matar os filhotes de outro macho garante que a fêmea fique pronta para ter e cuidar de filhotes seus. A mensagem que fica é que, quando o espaço é grande, os ratos são mais agressivos uns com os outros, mais territorialistas.

A história é outra quando o espaço não é muito grande. É claro que um rato requer um mínimo de espaço para não se estressar, mas entre esse mínimo e o espaço disponível no campo há um grande intervalo. O que quero dizer é que, aqui, me refiro a uma comunidade com muitos ratos em um pequeno espaço, porém, com espaço suficiente para que tenham uma vida saudável. É neste âmbito que a estrutura social deles se mostra com uma enorme riqueza.

Almoço em família

Em primeiro lugar, se tornam apegados à família. Membros de uma mesma família vivem juntos, em uma hierarquia rígida e bem definida. Há o macho dominante, dito alfa. Ele se torna dominante através de disputas, lutas sérias, mas sem muitos ferimentos, em geral. Normalmente, ganha o rato maior e mais agressivo. Porém, uma vez estabelecido como alfa, dificilmente será desafiado, mesmo que por um rato maior, de uma geração futura. Machos respeitam a ordem das coisas. Um macho alfa tem a preferência das fêmeas, pode exigir que seja limpo por um subalterno ou que limpe o subalterno. Entre os subalternos, existem os betas e os ômegas. Os betas são submissos e fazem todas as vontades do alfa. Iniciam brincadeiras de lutinha com o alfa, cuidam de seu pelo e estão sempre por perto dele. Os ômegas são mais independentes e audazes. Não gostam muito de bajular o alfa, como fazem os betas. Também não se submetem muito às suas vontades, o que pode gerar conflitos. Quando um alfa se incomoda com a atitude insolente de um ômega e os conflitos são constantes, é comum o ômega abandonar a colônia e ir viver por conta própria. Isso é ruim para o ômega. Então, por que se comportar assim? O caso é que essas estratégias diferentes, de betas e ômegas, têm vantagens e desvantagens. Um beta, estando sempre por perto do alfa, terá mais acesso a comida e a fêmeas. Quando uma fêmea entra no cio, alfa e seus betas correm atrás dela (literalmente – é um jogo de pega-pega). O alfa tem a preferência da fêmea, mas ela não lhe dá exclusividade. Se um beta tiver paciência, o alfa vai se cansar e ele terá uma chance. Quem tem fêmeas em casa sabe que fêmeas não se cansam. Nunca. Mas betas serão sempre betas. Se alguma coisa acontecer com o alfa, é normalmente um ômega que assume seu lugar. Essa é a vantagem de ser ômega.

Com a aglomeração dos centros urbanos, os machos também ficam mais tolerantes com machos vizinhos e podem compartilhar territórios. A selva de pedra e concreto requer cooperação. Mas continuam agressivos contra estranhos. O curioso é que se um estranho sinalizar adequadamente (com um chiado específico, de 50 kHz, ultrassom portanto), mostrando submissão, pode atravessar um território de outros machos sem ser atacado. É só pedir com jeitinho.

Entre fêmeas é parecido. Elas não são tão agressivas umas com as outras quanto os machos são, mas há a alfa, betas e ômegas. Na verdade, a literatura fala sobre fêmeas alfas e betas, mas nunca li nada sobre ômegas. O que me faz pensar que isso exista também para fêmeas é o que acontece aqui em casa. A Kali é a fêmea alfa, mas a Sáti não está nem aí para isso. No início, a Kali brigava com ela, quando ela cortava a vez da Kali em alguma coisa ou simplesmente não mostrava submissão. Depois de um tempo, acho que a Kali desistiu. A Sáti não iria mudar, é o jeito dela. Agora, convivem bem. Uma maneira de uma fêmea se tornar alfa é engravidando. Quem tem coragem de negar as vontades de uma rata grávida?

Em grandes comunidades, há regras. Ratos adultos não machucam crianças. Machos podem colaborar (um pouco, não muito) na criação das crianças. Fêmeas com filhotes pequenos se ajudam e podem, até mesmo, dividir um ninho.

Vemos então que ratos amam suas famílias, são tolerantes com vizinhos e agressivos com estranhos. Ter isso em mente é importante na hora de introduzir um novo rato em uma gaiola. No começo, ele é um estranho. É necessário que, para ser aceito como membro da família, ele passe pelos estágios de conhecido, vizinho e amigo, para só então se tornar da família, ou seja, morador do mesmo condomínio. É um processo delicado. Fêmeas são mais receptivas a novas moradoras, mas problemas podem acontecer. Com machos, é preciso ter muito cuidado. Se a apresentação for feita cedo, até por volta de três meses, a aceitação é, normalmente, fácil. Depois disso, é geralmente difícil e demorada. Digo geralmente, porque isso tudo depende muito da personalidade dos ratos envolvidos. Alguns são, simplesmente, mais receptivos do que outros.

Uma coisa que podemos inferir de tudo isso é que a disponibilidade de espaço determina boa parte do comportamento de uma colônia. Se colocarmos muitos ratos amontoados, eles vão se estressar e não terão uma vida saudável. Se colocarmos poucos ratos em um ambiente muito grande, eles vão se tornar territorialistas e vão brigar. Gaiolas muito grandes não são boas, pasmem. Devemos prestar atenção ao comportamento de ômegas. Ao natural, se as tensões aumentam muito, eles deixam a colônia. Em uma gaiola, isso não é possível e o resultado pode ser desastroso. O “bullying” do alfa pode levar o ômega a níveis de estresse que podem ser fatais. Aqui em casa, percebi que o Baldur é ômega. Mas como o macho alfa sou eu, não há problemas.

Toda essa riqueza de comportamentos mostra que o convívio social é parte central na vida de um rato. Em 1963, Hatch et. al. (ver final do texto) publicaram um artigo onde analisavam os efeitos do isolamento em ratos. Novamente, são ratos de laboratório e os efeitos podem ser diferentes em ratos domésticos. Mas os resultados são expressivos. Submetidos ao isolamento, começavam a dar sinais de estresse entre 4 a 6 semanas. Nas palavras dos autores (em uma tradução livre), “após 3 meses, o rato isolado é um animal nervoso, agressivo e intratável”. Todos eles desenvolveram dermatite caudal, sendo que nenhum dos ratos que foram mantidos em grupos tiveram esse problema. Segundo o artigo, esse comportamento intratável até era reversível, mas levava em torno de 20 dias de convívio social para uma recuperação “plena”. Note que não foi medida a recuperação do trauma psicológico. O que foi medido é o nível de cada substância indicadora de estresse, no sangue. Seu comportamento voltou ao normal, mas quem pode dizer sobre trauma? Eles também mantiveram ratos isolados que eram manipulados por humanos diariamente, mas isso resolveu apenas parcialmente o problema do isolamento. A conclusão foi de que ratos precisam da companhia de outros ratos. É claro que o trato de um rato de estimação é diferente do de laboratório e alguns indivíduos são mais tolerantes ao isolamento do que outros, mas é fato que um rato solitário pode até parecer feliz, mas seria muito mais feliz se tivesse companhia (da mesma espécie).

Baseado em tudo que li (coloco algumas referências ao final) recomendo ter, no mínimo, dois machos ou três fêmeas em uma gaiola. O número ideal fica em torno de seis, por gaiola (mas não é necessário). É bom que um grupo não tenha muito mais do que doze em um mesmo espaço, mas podem existir exceções a isso.

Em uma mesma gaiola, o trabalho de cuidar de dois ratos é o mesmo do de cuidar de um só. E vê-los felizes, brincando entre si e com você, é muito gratificante.


J. Brandão, J. Mayer: Behavior of Rodents with an Emphasis on Enrichment, Journal of Exotic Pet Medicine 20 (2011) 256-269.

A. Hatch, G.S. Wiberg, T. Balazs, H.C. Grice: Long-Term Isolation Stress in Rats, Science 142 (1963) 507.

J.B. Calhoun: Population Density and Social Pathology, Scientific American 306 (1962) 139-148.

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13 respostas a Ratos em comunidade

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  3. eu tenho duas camundongos uma adulta (pop) e uma bem pequena (álice) a pequenina ganhei hoje e a adulta no começo desse ano eu coloquei elas juntas no começo a adulta tinha medo agora ela da uns ataques eu queria saber como fazer elas se entenderem

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    • Olá Ricardo. Eu não tenho muita experiência com camundongos. A dinâmica social deles é muito diferente da das ratazanas. O que percebi, com o pouco contato que tive, é que elas são muito mais ligadas à família e menos receptivas a pessoas “estranhas”. Seria bom você perguntar a alguém que entenda mais sobre camundongos. No Facebook, por exemplo, há vários grupos de pessoas que poderão lhe ajudar melhor. Desejo-lhe sorte.

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  4. Adorei, mas estamos enfrentando um problema do qual não encontro qualquer parecer. Temos quatros ratas e, infelizmente, a mais materna está sendo atacada por uma delas, esporadicamente ela aparece com varias lesões que se parecem mordidas. Nunca presenciamos as brigas, quando vemos a Preciosa, isso mesmo, o nome da vítima, aparece com as lesões. A pergunta: o que será que está ocorrendo para que isso aconteça? E o que podemos fazer para impedir essas agressões????

    Grata por nos ajudar!

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    • Oi Edilaine. É muito difícil saber o que realmente está acontecendo sem informações sobre o viveiro delas e a rotina em que vivem. Pode ser que ela seja a vítima, pode ser que ela seja a agressora, é difícil saber. Você diz que a Preciosa está sendo atacada por uma delas, mas nunca presenciou uma briga. O que te levou a essa conclusão? Há uma delas com jeito de mais “brigona”? Há outras que já apresentaram feridas?
      Em resumo, eu preciso saber:
      1) O tamanho, formato e localização do viveiro na casa (fica em lugar barulhento, quarto, varanda, etc.).
      2) O grau de parentesco entre elas (são todas irmãs, foram apresentadas posteriormente, etc.). Caso não sejam irmãs, diferença aproximada de idade e ordem de apresentação. Ajudaria bastante saber o tamanho relativo de cada uma.
      3) Em que período do dia as feridas são notadas. Elas aparecem no início da noite, ou no início do dia?
      4) Com que frequência aparecem novas feridas: todos os dias, a cada 4 ou 5 dias, ou é imprevisível?

      Para impedir que isso continue acontecendo, é necessário saber a causa do comportamento. É por isso que te faço todas essas perguntas. Você pode respondê-las na nossa página de contato: https://ratodecasa.wordpress.com/contato. Por e-mail, podemos manter uma conversa mais aberta e um pouco mais sigilosa. No corpo da mensagem, identifique-se como edilaine2012 e diga que a comunicação é para mim (Luiz). Faremos o máximo possível para resolvermos seu problema e garantir uma vida feliz às suas companheirinhas.

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  5. Adriana diz:

    Existe um experimento sobre o vício em drogas que mostra o quanto o isolamento é maléfico para os ratos. Esses quadrinhos http://www.stuartmcmillen.com/pt/comic/ratolandia/ ilustram o que os cientistas descobriram sobre ratos – e, quem sabe, sobre nós.

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    • Oi Adriana. Eu conheço o experimento. Acho que seu resultado fala muito sobre nós, também. Boa parte dos problemas sociais que temos é devida a (creio eu) uma incapacidade nossa de perceber o isolamento emocional de indivíduos. Muitas pessoas têm grandes grupos de conhecidos, mas são isolados quanto a suas emoções mais profundas. Também há o abandono do estado para com pessoas em necessidade. Há também o problema da superpopulação dos grandes centros. Existe outro experimento com ratos que mostra a decadência de sua sociedade, quando atinge uma certa densidade demográfica, mesmo que tenham tudo o que necessitam em abundância (exceto espaço). Não gosto de divulgar essas coisas por achar que essas experiências são cruéis. Há maneiras menos destrutivas de se chegar às mesmas conclusões.
      Mas obrigado de compartilhar! Esses debates são sempre construtivos.

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      • Adriana diz:

        Pois é, essa densidade excessiva, ou stress ecológico, afeta todas as espécies de que eu já ouvi falar e todas elas, nessas circunstâncias, se desorganizam e os indivíduos assumem comportamentos que parecem pervertidos mas que têm por finalidade trazer a população de volta a um nível tolerável. Uns viram canibais, outros matam filhotes, em algumas espécies machos e fêmeas deixam de copular uns com os outros e há até quem se suicide diretamente. Conosco não pode ser diferente.

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  6. Isabela diz:

    Tenho um hamster anão russo de 8 meses e a duas semanas adotei um twister.Os dois estão dividindo a mesma gaiola ate que o twister atinja um tamanho que não passe pelo vão entre as grades da gaiola dele .Os dois parecem estar muito unidos e gostaria de saber se essa amizade seria possível quando a maturidade chegar. Ou devo separar os dois assim que possível?PS:são 2 fêmeas

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    • Isabela, por favor, separe as duas o quanto antes. Ratos até são dóceis, mas há dois problemas aqui. Primeiro, hamster é comida de rato. Segundo, hamster são extremamente antissociais e, caso a rata seja dócil à hamster, mais cedo ou mais tarde, a hamster vai tentar matá-la. Separe o mais rápido possível.

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  7. Fábio Da Silva diz:

    Tenho dois ratos twisters,e venho percebendo que desde que o marley morreu (eram três) o einstein vem atacando o saroo,inclusive o saroo quase não se alimenta nem bebe água e tenta sempre se afastar dele principalmente quando eu abro a gaiola,estou considerando separar os dois por um tempo

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    • Olá Fábio. Muito provavelmente o Marley era o macho dominante. Qual o tamanho da gaiola? Esse tipo de coisa pode acontecer se a gaiola for muito pequena ou muito grande. Evite separar os dois. Caso o Saroo não consiga se aproximar de água e comida, coloque dois bebedouros e dois comedouros, um em cada canto (um no espaço do Saroo, um no do Einstein). Veja se melhora.

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