O fantasma da Micoplasmose

Por Luiz Henrique

Já li algumas pessoas perguntando: como faço para saber se meu rato tem micoplasmose?

Antes de responder a esta pergunta, vamos a algumas informações. É comum ratos terem problemas de saúde. Entre os mais comuns estão os problemas ligados à idade, como tumores mamários em fêmeas, os problemas de pele, como ácaros, os problemas odontológicos e os problemas respiratórios. Repentinamente, seus ratos começam a espirrar e a roncar. Pode ser um monte de coisas. Pode ser alergia à areia do banheirinho, uma reação ao excesso de amônia (por causa da urina), alergia a pó, ao paninho novo que você colocou, ao cheiro forte do amaciante que você usou para lavar alguma coisa deles, enfim. Pode ser o tempo seco. Normalmente, tirando de perto deles o fator que causa a alergia ou, no caso do tempo seco, umidificando o ar, a respiração deles volta rapidamente ao normal. Alergias normalmente causam descargas nasais, que podem ou não conter porfirina ao redor do nariz ou dos olhos (aquela substância vermelha que parece sangue), mas não deixam o rato molenga ou febril. Infecções, sejam virais ou bacterianas, causam febre. Entre outros sintomas, pode ser que o rato fique menos ativo, com menos apetite, com o pelo esquisito (não vai estar fofinho e suave, como de costume) e com chiado no peito, com dificuldade para respirar. Em casos mais graves, ele pode perder o equilíbrio, por causa de infecção no ouvido, pendendo a cabeça para um dos lados. Pneumonias assim são muito sérias e podem matar em pouco tempo.

Respondendo à pergunta do início do texto: sim, seu rato tem micoplasmose.

Falo aqui especificamente de uma bactéria chamada Mycoplasma pulmonis, que causa a Micoplasmose Respiratória Murina. Micoplasmas são bactérias muito pequenas, menores do que as bactérias “convencionais”. Normalmente, bactérias têm uma proteção externa adicional, que pode ser, inclusive, dupla. Micoplasmas não. Assim, fora de um hospedeiro, elas têm vida reduzida. São muito sensíveis à desidratação e a desinfetantes. Porém, dentro do hospedeiro a história é outra. Quando o coitado adoecido começa a produzir anticorpos, ou quando recebe antibióticos, elas são capazes de se esconder dentro das células da vítima. Uma vez infectado, é possível fazer um controle da infecção, mas não há como se livrar da dita cuja. Algumas delas vão conseguir escapar do tratamento e permanecer no organismo. É uma doença para a vida toda. É transmitida por gotículas de fluidos corpóreos no ar (aerossol), por contato direto ou por secreções, como por exemplo, durante o sexo, ou na hora do parto. Humanos não pegam esta micoplasmose e essa bactéria não consegue viver muito tempo em humanos. Assim, com bons hábitos de higiene, é improvável que você seja um vetor de transmissão entre ratos.

Para se ter uma ideia da dispersão da doença, estima-se que todos os ratos selvagens tenham micoplasmose. É provável que quase todos os ratos de estimação também tenham. Ela está presente mesmo em ratos de laboratório, onde o controle sanitário é maior. Há basicamente três níveis sanitários em que uma colônia de ratos de laboratório pode estar. O mais rigoroso é dito “livre de germes”. É extremamente difícil manter uma colônia assim. Os ratos nascem com uma técnica especial de cesariana e são completamente desinfetados. São mantidos em ambientes com atmosfera controlada (a pressão atmosférica no interior da câmara de isolamento é ligeiramente maior, para evitar qualquer possibilidade de entrada de ar contaminado) e completamente isolados do contato com o mundo. Tudo o que for introduzido na câmara precisa ser esterilizado. Poucas instituições têm condições de manter uma colônia nestas condições. O nível intermediário é mais comum. É dito “livre de patógenos específicos”. Isto significa que os ratos dali não possuem micro-organismos de uma lista específica. Apenas uma equipe reduzida de profissionais lida com os ratos e muito cuidado é tomado para que não haja contaminação. Os ratos são testados periodicamente para as doenças específicas. O nível mais leve inclui apenas bons cuidados de higiene. Pois bem. Em biotérios de universidades brasileiras, é comum ratos terem micoplasmose, como mostra esta pesquisa. Porém, a micoplasmose pode ser encontrada mesmo em laboratórios com uma barreira sanitária mais rígida (a de segundo nível), como mostra esta outra pesquisa, feita em laboratórios de pesquisa europeus.

Há várias cepas diferentes de Mycoplasma pulmonis. Algumas são mais agressivas, outras menos. Em muitos casos, ela é assintomática. O rato vai passar a vida inteira com a micoplasmose, sem que ela se manifeste. Mas há fatores que podem aumentar o risco de se desenvolver uma infecção séria de micoplasmose. Se o rato estiver debilitado, desnutrido, desidratado ou estressado, pode ter a imunidade comprometida, abrindo uma brecha para a micoplasmose. Outro ponto importante são os fatores que agridem o sistema respiratório. Fumaça é um deles. O mais importante é o acúmulo de amônia. A amônia proveniente da urina deles agride o sistema respiratório e é um fator que pode potencializar muito a agressividade do micoplasma (veja J. Graham et. al.: Mycoplasma pulmonis in rats, Journal of Exotic Pet Medicine 20 (2011) 270-276). É importantíssimo manter a gaiola limpa e bem ventilada para evitar este acúmulo.

A micoplasmose é adquirida na infância e acompanha o indivíduo por toda a vida. Ela vai progredindo lentamente e se espalhando pelo corpo. Ela, ao contrário do que o nome sugere, não se limita ao sistema respiratório. O grande risco é que ela diminui a imunidade do rato, fazendo com que ele fique mais sensível a outras infecções, como pneumonia, por exemplo. Estas infecções “secundárias” são muito perigosas. Há tipos de pneumonia que podem matar um rato em menos de 24 horas (e é transmissível por nós, para eles). Apesar da medicação não ser capaz de eliminar a micoplasmose, é importante no controle de sua agressividade.

Gostaria de deixar algo claro aqui. Eu não sou veterinário. Tenho um bom treinamento científico, mas longe das áreas de saúde ou biologia. As informações contidas neste texto não substituem uma consulta de um veterinário. Na verdade, o objetivo deste texto é convencer aqueles que têm ratos de estimação a terem um contato de um bom veterinário (de ratos) no bolso. Um atendimento rápido pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Uma grande dificuldade é encontrar bons veterinários de ratos. Ratos são muito diferentes de cães, gatos ou cavalos e se o veterinário não for especializado em animais exóticos (não humanos), vai fazer bobagem. Aconselho a procurar um veterinário (de exóticos) que tem, ou já tenha tido, ratos como bichinhos de estimação. Não que isso seja necessário. Assim como não é necessário ter filhos para ser um bom pediatra. Mas um veterinário que tenha contato diário com ratos tem mais chance de já ter lidado com o problema do seu rato, antes. Pense que um veterinário de exóticos tem que entender de alguns invertebrados, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. é uma carga de conhecimento gigantesca. Por isso acho importante que ele mostre ter experiência no trato com ratos, especificamente. Aconselho também a procurar um veterinário quando seus ratinhos estiverem bem. Isso porque, por um lado, vimos que infecções agressivas têm que ser tratadas com urgência. Por outro lado, é muito difícil encontrar especialistas em ratos, mesmo em grandes centros. Em uma emergência, pode ser que você não consiga encontrá-lo a tempo.

Em resumo, não se preocupe, seu rato tem micoplasmose e isso não é nada de mais. Mas tenha o contato de um veterinário de confiança sempre à mão.

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18 respostas a O fantasma da Micoplasmose

  1. Lívia diz:

    Legal. Pra mim esse é o melhor blog sobre ratos, pois as informações são sempre detalhadas e honestas.

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  2. Pingback: Mãe, meu nariz tá sangrando | Rato de Casa

  3. Pingback: O inverno está chegando | Rato de Casa

  4. juliA diz:

    Tenho 3 ratas que são criadas juntas, uma delas faz muito barulho pra respirar e espirra bastante e as outras não. Já testei de tudo pra ver se era alergia á comida, pano, areia, plastico e etc. nenhuma deu resultado. Ela fez diversos tratamentos com antibioticos, antifungicos e antinflamatorios para micoplasma. Teria alguma outra doença com esses sintomas?

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    • Oi Júlia. Eu não sou veterinária, mas posso contar algo da minha experiência. Eu tive uma rata com barulho pra respirar que não era alergia e não deu resultado com remédios, a Sati. Nós descobrimos depois que era problema no coração (meu veterinário diz que problemas no coração também causam esse barulho na respiração). Você já tentou inalação?

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  5. Pingback: Eu tenho alergia a ratos. E agora? | Rato de Casa

  6. Sílvia diz:

    Oi, tenho um dumbo faz 1 ano, era gordinho e agitado, hoje ele está magrinho, só dorme, pêlo todo falhado e caminha cambaleando. Estou apavorada. Veterinário p/ rato é caro e não sei o que dar p/ele. Pode me ajudar?

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    • Oi Sílvia. Aparentemente, ele está muito doente. Sinto muito, mas apenas um veterinário pode lhe ajudar. Veja se em sua cidade tem um hospital veterinário público, biotério de universidade, etc. Alguém que possa lhe ajudar. Vale também conversar com um veterinário de exóticos e explicar sua situação financeira. Muitos veterinários são sensíveis a esses casos. Mas é essencial que você procure ajuda o quanto antes. Mesmo que eu fosse veterinário (o que não sou), não poderia lhe indicar qualquer tratamento, sem uma consulta “presencial”. Boa sorte a vocês.

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  7. Haira diz:

    Olá, meu rato ta mt doente saindo bastante secreção nos olhos e nariz ele não come e n bebe água não se mexe e aqui onde moro n tem nenhuma clínica especializada no caso vcs podem me ajudar por favor

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    • Olá Haira. Nós não podemos oferecer auxílio veterinário. Sem uma consulta presencial, nem mesmo um veterinário pode. Se não estou enganado, você mora próximo à cidade do Rio de Janeiro. Tente entrar em contato com alguém de lá, para que uma consulta seja possível. Mas já vou avisando: é pra ontem! O caso do seu ratinho parece bastante grave. Desejo-lhes sorte e uma boa recuperação ao seu bichinho.

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  8. oi! meus ratinhos tem micoplasmose , e já estamos realizando o tratamento com antibiótico porém algo tem me chamado atenção nos últimos dias, com o passar dos dias do tratamento com antibiótico o barulho deles tem cada vez mais diminuído, porém noto que durante algum momento do dia , eles voltam a fazer o barulho ( pela dificuldade de respirar ), porém todo o resto do dia eles ficam sem fazer barulho.
    isso é normal o que pode estar ocasionando isso ?

    muito obrigada

    Loretana giorgiori

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    • Oi Loretana. Você notou se o aumento na “roncadeira” deles acontece durante as horas mais quentes do dia? Caso sim, pode ser influência da urina, que nessa época de calor tende a evaporar mais facilmente, causando reações nos pulmões. Se for este o caso, procure colocar material absorvente, como papel toalha, para eles e troque todos os dias, preferencialmente pela manhã.
      Lembre-se de que os antibióticos são importantes no controle da infecção, mas não curam a micoplasmose. Assim, eles vão precisar sempre de cuidados especiais com os pulmões deles.

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  9. pedro victor diz:

    eu comprei um ratinho novo, ele veio espirrando e as vezes faz um barulinho engraçado, tem 3 dias e ele continua espirrando, hoje quando fui ver meu rato mais velho estava com uma secreção nos olhos, o que eu faço pode ser alergia ou micoplasmose, gostaria de uma solução caseira

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    • Olá Pedro. Muito provavelmente eles estão com uma infecção respiratória. Se fosse alergia, não seria contagioso. A solução caseira que recomendo é chamar um veterinário à sua casa. Não tem jeito. Problemas respiratórios precisam de atenção de um veterinário especialista em ratos.

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  10. ANA PAULA INÁCIO diz:

    Parabéns pelos esclarecimentos, Luiz Henrique; respostas claras e objetivas fazem muita diferença para quem precisa de ajuda.

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  11. Jamile Barcelos. diz:

    Os esclarecimentos aqui fizeram toda a diferença pra mim! Muito obrigada por dividi-los conosco, Luiz Henrique!

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