Por uma vida melhor

Por Luiz Henrique

Quando se fala em saúde dos nossos bichinhos, poucas vezes nos vem à mente a sua saúde mental. Mas será que isso faz sentido? Será que ratos podem sofrer de distúrbios mentais? Antigamente, alguém que fizesse esse tipo de pergunta seria ele mesmo suspeito de sofrer de algum distúrbio mental. Hoje, sabemos que animais podem sim apresentar esse tipo de problema. Nas últimas décadas, aumentamos muito nosso conhecimento sobre nossa própria mente e seus problemas. Isto teve um reflexo grande em como encaramos os outros animais. Há muitas diferenças entre nós e eles, mas muitas semelhanças, também.

Uma pergunta que sempre vejo é se ratos podem ter depressão. Sim, ratos podem ter depressão. A primeira coisa que tem que ficar clara é que tristeza e depressão são coisas diferentes. Tristeza é um estado puramente emocional, normalmente engatilhado por fatores ambientais (a morte de um ente querido, a quebra de um relacionamento, etc.), a que todos estamos sujeitos. Pode ser bastante profunda, mas a gente se recupera. Depressão é um desbalanço químico no cérebro. Em um cérebro saudável, as células (os neurônios) se comunicam através de substâncias (os neurotransmissores) para efetuar suas funções (caminhar, lembrar, sonhar, fazer contas, etc.). Quando as células não conseguem produzir estas substâncias na quantidade ou na qualidade adequadas, o cérebro sofre para fazer qualquer coisa. Isto é depressão. Uma pessoa com depressão sofre, o que pode ser confundido com tristeza, mas também tem dificuldades mesmo para fazer as tarefas mais simples. É difícil sair da cama. Um bom ambiente, apoio dos amigos e da família, ajudam a amenizar os sintomas, mas não curam o problema. É um problema em um órgão do corpo e é resolvido com a medicação adequada. Além disso, há uma predisposição genética para a depressão.

Já comentamos em outro post, que ratos têm emoções parecidas com as nossas. Ratos sentem tristeza e podem, inclusive, perceber que outro rato está sofrendo, pela expressão de seu rosto. Eu sei como meus filhotes estão se sentindo só de olhar a carinha deles. É interessante saber que eles também. (Veja o artigo, aqui.)

O cérebro dos ratos é um tanto diferente do nosso. Não só em tamanho, mas em estrutura. Muitos “circuitos” são parecidos, mas temos um poder de computação um pouco maior. Porém, o funcionamento básico é praticamente o mesmo. As substâncias envolvidas mudam muito pouco. Portanto, os problemas químicos são parecidos. A diferença entre uma pessoa amuada e uma deprimida pode ser constatada pela presença de certas substâncias (em níveis anormais) no sangue. Como a depressão é um desbalanço químico no cérebro, ela causa várias diferenças fisiológicas, que são detectáveis em exames de sangue. Como nós somos fisiologicamente parecidos com os ratos, os mesmos exames podem acusar a existência de depressão.

Mas alguns pesquisadores foram além. Neste artigo, eles comparam a informação que temos do mapeamento genético de vários transtornos mentais humanos, com genes análogos em outras espécies de mamíferos. São 45 espécies diferentes, ratos inclusos. Entre os transtornos estudados estão depressão, ansiedade, transtorno bipolar, transtorno de deficit de atenção (com hiperatividade), autismo (e síndrome de Asperger) e esquizofrenia. Os golfinhos são os que têm o perfil mais parecido com o nosso, mas o estudo sugere que estes transtornos têm análogos em todas essas espécies, em maior ou menor grau de semelhança. É interessante notar que, nos casos da esquizofrenia e do autismo, por exemplo, as semelhanças entre nós e os ratos (e elefantes, cães e muitos outros) são pequenas. Isso pode ter origem (é um chute meu!) na observação de que estes transtornos estão bastante associados à estrutura do cérebro e nem tanto à sua química. Assim, acho difícil que um dia alguém relate que seu rato é esquizofrênico e que lambe o seu amigo imaginário. Mas ratos deprimidos são uma realidade.

Há um artigo curioso que relata que a depressão em ratos pode ser atenuada com enriquecimento ambiental (brinquedos, coisas coloridas, etc.) e que tratamentos psicoterápicos (para ratos) podem ser desenvolvidos. Para chegar a esta conclusão, eles usam os marcadores fisiológicos de depressão que comentei em uma estirpe de ratos conhecida por ter propensão genética à depressão (derivados dos Wistar de Kioto). Afinal, não dá para colocar o rato em um divã e perguntar se ele está bem (entretanto, se ele estiver deprimido, provavelmente não vai roer o divã).

Eu relutei bastante em citar o artigo anterior neste post. O problema é que, apesar de conter resultados que mereçam ser divulgados, os métodos usados para chegar a esses resultados são inaceitáveis. Sinceramente, eu não consegui terminar de ler o artigo. É cruel demais. Eu preferia ficar sem os resultados. Está mais do que na hora de dar um basta a este tipo de comportamento. Eu sou um defensor ávido do progresso científico (sendo, eu mesmo, um cientista), mas ele não pode vir às custas do sofrimento alheio. Estes bichinhos sabem o que está acontecendo com eles, têm noção da injustiça e da crueldade com que são tratados. Inclusive, compartilham conosco um outro distúrbio mental: o estresse pós-traumático. Há um artigo interessante sobre isso, aqui (este é um estudo “limpo”).

O fato de apresentarem reações de trauma significa que as experiências que enfrentam têm impacto duradouro em suas vidas. Portanto, não é ético submeter alguém assim a sofrimento, não importa o quão relevante seja o resultado. Se somos cientistas tão “espertos”, devemos pensar em outras maneiras de obtermos o mesmo conhecimento. Eu tenho, aqui em casa, dois meninos que foram usados em experiências de psicologia comportamental (behaviorista), em uma atividade didática. A diferença de comportamento entre eles e os outros é gritante. Agora eles já sorriem, mas são ainda muito receosos ao toque. Eles se assustam facilmente e sofrem com isso.

Vamos lutar para que esta condição mude.

deimos_depressao

 

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