Esses dentes que não param de crescer

Por Luiz Henrique

Ratos são roedores. Portanto, seus dentes são o que definem sua classificação. Entender como são, como funcionam, é importante para manter a saúde dos nossos amigos dentuços.

Ratos não têm dentes de leite. Eles têm apenas a dentição permanente. Tanto no maxilar superior, quanto no inferior, têm dois dentes incisivos (um de cada lado) e seis molares (três de cada lado). E só. Para comparar, nós temos quatro incisivos, dois caninos, quatro pré-molares e seis molares. Nos ratos, onde haveria mais incisivos, caninos e pré-molares, há um espaço vazio. Os dentes molares deles são bem parecidos com os nossos (em função). Mas os incisivos são muito diferentes. Eles não têm raiz e crescem o tempo todo. Em média, os incisivos superiores crescem 0,3 mm por dia, enquanto os inferiores crescem cerca de 0,4 mm por dia. Para um bichinho daquele tamanho, é muita coisa. Os inferiores crescem um pouco mais rápido para compensar o fato de que são um pouco mais fracos do que os superiores e se quebram mais facilmente. Há esmalte apenas na parte da frente dos dentes. A parte de trás tem só dentina, que é um pouco mais mole. Ainda assim, é bastante dura. O esmalte dos dentes deles chega a ser mais duro do que ferro (é… eles roem ferro). Inclusive, são óxidos de ferro, presentes no esmalte, que dão aquela cor alaranjada aos dentes deles. O fato de terem uma substância mais dura na frente e mais mole atrás, faz com que, ao desgastarem os dentes, a parte de trás fique mais gasta do que a da frente, criando algo parecido com o fio de uma lâmina. É uma navalhinha.

dentes

Nanna mostrando seus dentes saudáveis

Outra coisa curiosa é que a mandíbula dos ratos é constituída de dois ossos. Ela tem uma separação no meio que é ligeiramente articulada. Usando músculos adequados, eles podem separar ou juntar um pouco os dentes de baixo, como se fosse uma tesoura. É pouco, mas dá pra perceber que às vezes os dentes estão mais separados do que o normal.

Fica então claro que ratos precisam de um suprimento constante de cálcio, fósforo e ferro, além das vitaminas envolvidas (como A e D, por exemplo), para que seus dentes cresçam fortes e saudáveis. O tempo todo.

Ao contrário de outros roedores, que precisam gastar os dentes com comidas abrasivas, ratos têm uma maneira curiosa de manter seus dentes aparados. Quando estão relaxados, roçam um dente contra o outro, fazendo aquele barulho típico de rato feliz. Ao fazer esse esforço, os potentes músculos da sua face, que ficam logo abaixo dos olhos, pressionam os olhos para fora de sua órbita, num movimento de vai e vem. Os olhos ficam pulando – é bem engraçado.

Com estruturas tão complicadas e delicadas, é comum aparecerem problemas. Se, por algum motivo, o rato não conseguir gastar seus dentes, eles podem ficar perigosamente grandes e até mesmo impedir que se alimente. Se forem alimentados apenas com comidas moles, sem que haja nada duro para roerem na gaiola, não há seção de relaxamento que consiga gastar os dentes o tanto necessário. Eles vão ficar muito grandes.

Outro problema é um acidente. Uma queda de boca pode quebrar os incisivos de baixo, ou os de cima, fazendo com que haja um desequilíbrio na boca. Digamos que tenha quebrado os dentes de cima. Os de baixo vão crescer mais do que deveriam, até atingir a posição dos de cima. Isso dificulta a alimentação adequada e ele vai parar de gastar os dentes, que vão crescer sem controle. Se o machucado for profundo, há ainda o risco dos dentes crescerem tortos (pense no caso de uma unha encravada). Isso é bem difícil de corrigir.

Há várias causas que levam ao crescimento inadequado dos dentes. Uma delas é roer materiais inadequados. Quando um rato começa a roer as grades da gaiola, insistentemente, o ferro pode irritar a base do dente e fazer com que ele cresça torto. Dor e estresse também interferem no crescimento dos dentes.

Também pode acontecer dos dentes crescerem fracos. Desnutrição, estresse e infecções crônicas podem afetar o desenvolvimento de uma boa dentição.

Para desgastar os dentes da frente, é comum os ratos comerem coisas abrasivas. Porém, isso acaba gastando um pouco os dentes molares deles, que não crescem indefinidamente (são como os nossos). O resultado é que, com a idade, os molares vão ficando mais fracos e propensos a cáries. Após o segundo ano de vida, os cuidados para se evitar cáries devem ser redobrados. Por exemplo, um alimento que pode causar cáries é a maçã (por seu pH e por ser doce). Após comer essas coisas, uma solução é oferecer alimentos que ajudem a limpar os dentes, como vegetais fibrosos ou proteína animal.

Dentes saudáveis são alaranjados e lisos. Não há ondulações nos dentes. A cor é uniforme (e ficam cada vez mais escuros com a idade). Dentes esbranquiçados significam visitar o veterinário. Quanto à posição, eles são curvos, fazendo um arco para frente, mas não para os lados. Dentes superiores ficam à frente dos inferiores. Com a boca fechada, os inferiores terminam um pouquinho depois donde começam os superiores. Eles devem estar mais ou menos alinhados. Os dentes devem estar desgastados na horizontal. Se estiverem na diagonal (um deles um pouco maior do que o outro), é problema.

É muito importante cuidar com a alimentação, evitar o estresse e ficar muito atento a infecções. Após acidentes, como batidas ou quedas, eles devem ser muito bem acompanhados e ficar sob observação. Se houver mudança de hábitos alimentares, como passar a evitar comidas duras, leve ao veterinário. Descargas frequentes de porfirina nos olhos também podem indicar problemas com os dentes.

Mas, caso os dentes cresçam demais, o que pode ser feito?

Neste caso, os dentes devem ser cuidadosamente podados. Normalmente, o rato é sedado e os dentes são cortados com uma broca de disco (parecida com aquelas de marcenaria, só que mini-mini-micro). Se o veterinário for muito, mas muito experiente, pode cortá-los com um alicatinho, ou coisa parecida. Isso requer muita experiência, pelo seguinte. Qualquer um que já tenha tentado cortar a ponta de um palito de sorvete com uma tesoura sabe que, às vezes, o palito se quebra um pouco na vertical. Com os dentes deles, acontece o mesmo. O caso é que, mesmo que seja uma micro fissura, pode infeccionar. Infecções nesta região são perigosíssimas. Além disso, o disco permite polir os dentes no ângulo certo, fazendo com que a chance de se ter novamente problemas de crescimento, seja menor. Portanto, nada de usar cortador de unha, alicate ou serra tico-tico. Se perceber que há algo errado com os dentes do seu bichinho, leve a um veterinário experiente.


Gostaria de agradecer à leitora Rosane, que sugeriu o tópico e ao Dr. André Richter, que trouxe informações sobre o assunto. As informações contidas neste post foram extraídas do livro:

Estella Böhmer – Dentistry in Rabbits and Rodents, Wiley-Blackwell, 2015.

Olhe só os olhinhos pulando!

 

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5 respostas a Esses dentes que não param de crescer

  1. Zheoma diz:

    Se eu deixar uma pedrinha de lima, aquelas de afiar faca, ela mesmo rói? Qual o melhor objeto pra deixar para eles roerem e apagarem os dentinhos sozinhos?

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    • Zheoma diz:

      Apararem*

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      • Oi Zheoma. Ratos não têm uma necessidade tão grande de roer coisas para aparar os dentes. Ao contrário de outros roedores, eles gastam os dentes esfregando uns nos outros, se precisarem (conhecido por bruxismo). Você pode dar coisas mais moles, como brinquedos de madeira. Só evite madeiras claras que tenham odor forte, como cedro e pinus. Esses óleos cheirosos são fortes demais e podem atacar o fígado deles. Aqui a gente dá papelão e bambu e eles fazem a festa.

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  2. Adriana diz:

    A casa dos meus tem uma estrutura de madeira para eles subirem. Serve para eles roerem? porque eu nunca percebi marcas de roídas nelas…

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