Mamãe e bebês – parte II

Por Luiz Henrique

No post da semana passada falamos sobre o que está envolvido ao se cruzar um par de ratos. Agora, vamos aos detalhes dos cuidados na gestação e no pós parto.

Preparando-se para a chegada da ninhada

A gestação dos ratos pode durar de 20 a 24 dias, ficando normalmente em torno de 23. É muito rápido. Os bebês nascem sem pelos, com olhos e ouvidos fechados. Para parir rapidamente uma quantidade grande de filhotes, o preço que pagam é que eles não estão completamente desenvolvidos quando nascem. Parecem borrachinhas e são muito frágeis.

Durante a gestação, muita coisa pode dar errado. Por isso é muito importante ter um veterinário à disposição, que esteja ciente da gravidez da menina. Pense nos problemas que uma mãe humana tem durante uma gestação. Agora, imagine que são gêmeos. Agora, imagine que são doze.

Durante a gravidez, a mãe ganha peso constantemente. No começo, ganha de 2 a 3 gramas de peso, por dia. Na última semana, esse valor aumenta. Qualquer alteração nesse ritmo pode indicar problemas, que têm de ser identificados imediatamente e urgentemente tratados. Por isso, é muito importante medir o peso da mamãe todos os dias, preferencialmente no mesmo horário. Vejam como foi a gravidez da Sáti:

peso_sati

Peso, em gramas, da Sáti, durante os 23 dias de gravidez

Notem que ela começa a gravidez um pouco abaixo do peso ideal, com 230 g. No caso dela isso não é problema, porque ela é pequena mesmo. O peso aumenta diariamente até o sexto dia, quando algo dá errado. Fazendo as contas, é possível que, entre o sexto e o oitavo dia, ela tenha perdido dois filhotes. Nesses casos, é necessário muita atenção. O comum é que os fetos sejam reabsorvidos pelo corpo da mãe. Caso isso não aconteça, ela pode desenvolver uma infecção séria. Assim, manter peso é mau sinal. A partir do oitavo dia ela começa a ganhar peso novamente, com a curva esperada. Ufa! O perigo passou. No vigésimo terceiro dia, ela está com 330 g. É um aumento de quase 45% do seu próprio peso! Vejam como uma gravidez exige do corpo de uma rata. Com isso em mente, percebemos que cuidados adicionais são essenciais.

Em primeiro lugar, a dieta dela muda. É necessário que ela coma mais cálcio e, principalmente, mais proteína. Tanto nesta fase, quanto na lactação, há um aumento na necessidade de proteínas. Se você fornece uma dieta balanceada a seus ratos, ela será deficiente nesses nutrientes, nessa fase. É imprescindível complementar adequadamente a alimentação dela. Outro ponto importante é que a fêmea se estressa com mais facilidade (quem não se estressaria). Assim, ruídos e distúrbios do ambiente podem afetar a saúde dela e dos bebês. Também, é muito importante, por razões hormonais, manter um ciclo de claro e escuro bem definido. O ambiente deve ser escuro durante doze horas e claro nas outras doze, sem muitas alterações.

Nesta fase, algumas fêmeas que eram dóceis passam a ser agressivas. Algumas que eram agressivas, passam a ser dóceis. Algumas alteram muito pouco seu comportamento. O importante é respeitar as mudanças que ocorrem nessa época. É passageiro. Ela vai voltar ao que era antes. Mas caso ela fique muito agressiva, é possível que haja problemas de relacionamento com as outras. É importante perceber isso e tomar atitudes adequadas, para que ela se estresse o mínimo possível. E tenha paciência com a menina.

Se a fêmea se estressar demais durante a gravidez, pode ter a impressão de que não vai conseguir cuidar dos filhotes. Caso isso aconteça, a reação natural dela é matar e comer sua cria. Em um ambiente selvagem, isso evitaria que ela ficasse fraca demais para enfrentar predadores (ou fugir deles).

Ao natural, toda a família ajudaria a cuidar dos recém-nascidos. Entretanto, em cativeiro, é muito difícil você se livrar daquela irmã chata que ficou pra titia e insiste em pegar seu filhote e tratá-lo como se fosse dela. Brigas podem acontecer. Deixá-la com o macho, nem pensar! Na mesma noite em que deu à luz, a menina já está pronta pra outra! Além de ser muito inconveniente ter tantos filhotes de uma vez só, o estresse de duas gravidezes seguidas pode afetar demais a saúde dela. Ela vai morrer cedo. Talvez, cedo demais. É por isso que recomendo a separação. Porém, é importante que as outras meninas da colônia não percam o contato com a recém mamãe. É interessante que a gaiola que servirá de berçário fique próxima da gaiola original e que as titias possam fazer visitas diárias, controladas, aos seus sobrinhos. Se a mamãe reclamar, leve ela para dar uma voltinha para espairecer. Isso criará um vínculo entre as crianças e a colônia antiga.

É necessário, então, uma maternidade separada. A separação deve ser feita entre quatro e cinco dias antes dela dar a luz. Nesse período, ela vai escolher um lugar para fazer um ninho e se dedicar completamente a essa tarefa. Tirá-la do ninho que ela escolheu vai deixá-la insegura e estressada. A maternidade deve ter paredes sólidas e ser bem arejada. Uma caixa plástica organizadora grande, com uma tampa perfurada e furos nas laterais, para circulação de ar, deve servir. Se deixar os bebês em gaiolas com grades, eles vão fugir assim que começarem a engatinhar. Uma hora longe da mãe é suficiente para que ele morra. A caixa deve ter dois níveis de piso. Mesmo que seja um mezanino improvisado. A importância disso é que a mãe tenha uma área para descansar dos filhotes, que ficam no chão. Talvez, colocar água e comida para ela ali. Assim, ela deixa as borrachinhas no ninho e vai “respirar um ar fresco” de vez em quando. Durante a etapa de construção do ninho, você deve oferecer todo o material necessário para ela. Papel, papelão, caixas, etc. Ela precisa se sentir segura e confortável. E não a deixe sozinha o tempo todo. Uma vez por dia, coloque ela para brincar com suas companheiras, na gaiola original. Isso deve deixá-la mais feliz.

Durante o parto, é bom que a fêmea não seja incomodada. Ela vai ter seus filhotes em volta do ninho, recolher todos eles e limpá-los. Um pouco de sangue é normal. Um parto com muito sangue, que leve mais de duas horas, precisa de acompanhamento de um veterinário – algo pode estar errado.

Os bebês chegaram! Cuidados com a mamãe.

Como já disse antes, uma ninhada tem, em média, doze filhotes. Pode ser um pouco menos, mas pode ser um pouco mais. Amamentar todo esse povo não é fácil. De tempos em tempos, a mãe precisa de uma pausa. Por isso é importante que a maternidade tenha dois níveis. Eles nascem com pouco mais de 5 gramas, completamente indefesos. Por volta do décimo dia de vida, eles começam a engatinhar. Nesse período, eles mamam muito. Às vezes, é necessário dar uma ajudinha para a mãe, colocando um pouco de leite em um bebedouro separado.

Por volta de um mês de vida, eles desmamam. Os nossos meninos desmamaram com 35 dias. Foi necessário pois, depois disso, já há o risco de atingirem a maturidade sexual. Cinco semanas é o limite. Foram morar com o pai, onde recebiam uma visita ocasional da mamãe, para ninguém ficar preocupado. De qualquer modo, as gaiolas ficam no mesmo ambiente. A mamãe sabe que eles estão bem. Já as meninas mamaram até mais de 40 dias. Acho que se deixasse, elas estariam mamando até hoje.

Aqui em casa, não houve separação. Ficamos com a ninhada toda. Mas se a ninhada vai se separar da mãe, é importante que isso aconteça de maneira gradual. Assim, é simulado o que aconteceria ao natural. Os bebês ficam cada vez mais tempo fora de casa, até que não voltam mais. Uma separação abrupta dará a impressão de que a ninhada morreu. Isso pode afetar profundamente a mãe.

Cuidados com os filhotinhos

Os primeiros dias de vida das nossas crianças

Os primeiros dias de vida das nossas crianças

Ao nascer, os filhotes não têm pelos e olhos e ouvidos estão fechados. A barriga tem uma pele tão fina, que é quase transparente. Isso é um ponto importante. Por causa disso, é possível ver o leite dentro do estômago deles. Um bebê que não tenha a barriga cheia, na maior parte do tempo, não está se alimentando e vai precisar de ajuda. Também, é importante notar se a mãe lambe os filhotes com frequência. Para urinar ou defecar, eles dependem do estímulo da mãe, lambendo e massageando sua barriga. Se a mãe não fizer isso, eles podem morrer de intoxicação, rapidamente. Como são muito pequenos e não têm pelos, eles também dependem da mãe para se manterem aquecidos. É importante que a mãe nunca fique muito tempo longe deles, ou podem morrer de hipotermia.

Como você pôde ver, é preciso ter atenção constante aos filhotinhos. Diariamente, examine-os, um por um, se estão mamando, se estão limpos, se estão crescendo (coloque-os ao lado de uma régua), se estão dentro do peso, se estão aquecidos e se estão ativos. Quanto ao peso, você vai precisar de uma balança adequada. Aquelas de cozinha não servem. Aqui, usamos uma balança digital de ourives, que mede até 500 g, com escala em gramas com duas casas decimais. Assim, em um dia, o peso da borrachinha é de 5,43 g e no dia seguinte é de 5,94 g. Dá para ver a diferença. Com uma balança de cozinha convencional, mesmo com escala em gramas, ela marcaria 6 g por uns três dias. Isso acontece porque essas balanças não têm a precisão necessária para acompanhar mudanças tão pequenas nos pesos. Usando uma balança dessas, você poderia perder uma informação importante sobre o desenvolvimento deles. Veja nosso post sobre peso. Não se esqueça de lavar bem as mãos antes de lidar com eles. Eles ainda têm a saúde frágil. Mesmo que use luvas.

Aproveite esse momento de cuidado para brincar um pouquinho com eles. Desde o primeiro dia. Algumas mães não se importam. Outras gostam. Outras podem ficar preocupadas. Se a sua menina for daquelas que ficam preocupadas, coloque-a para passear (ou fazer algo divertido) em outro ambiente, para distraí-la. Lembre-se de que, principalmente nos primeiros dias, eles não podem ficar muito tempo longe da mãe. Mantenha-os aquecidos e confortáveis, amontoadinhos. Quanto antes puder determinar os sexos, melhor. A partir da primeira semana, já deve estar claro. Machos não têm mamilos e têm uma distância entre anus e genitália muito maior do que fêmeas, para acomodar seus futuros (e enormes) testículos.

A partir da segunda semana, já com pelos e parecendo ratinhos, eles já estão ativos o suficiente para brincar um pouco mais com você. Isso não é só um prazer para você. É uma importante tarefa de socialização. É nessa fase da vida que eles reconhecem quem é da família e quais são as ameaças. É importante que se socializem com o restante da colônia e com humanos. Faça cócegas na barriga deles. Eles serão mais felizes se acostumados assim. Como estão descobrindo o mundo, é necessário movê-los para uma gaiola maior, com mais andares e brinquedos. Eles têm muita energia para gastar! Porém, não se esqueça de que eles são ainda muito pequenos e a gaiola vai precisar de uma tela ao seu redor, que seja segura para os pestinhas (que não os machuque ou não os deixem presos nela).

É nessa fase, dos 15 aos 40 dias, que a criança aprende quase tudo o que vai precisar em sua vida, com sua mãe. Aprende o que comer e o que evitar, quem são amigos e quem são ameaças e a como se comportar com os outros. Muito de sua personalidade é herdada, mas boa parte é desenvolvida nessa fase, com a convivência com você, com a colônia original e com a mamãe. Por isso é tão importante não separá-los da mãe antes disso. Será muito traumático. Se a mãe dele for dócil com você, ele vai aprender a ser dócil também. Se a mãe for carinhosa com ele, ele será amável com seus futuros companheiros.

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Bebês, prontos para o exame diário e um pouquinho de cócegas

Deve ter ficado claro quanta dedicação é necessária para se ter uma ninhada em casa e o quanto se gasta com isso. Balança adequada, maternidade, gaiolas, telas, ração para a mãe desse povo todo e comida pra todo mundo, a partir da segunda quinzena. É trabalho em tempo integral.

var

Boa noite.

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3 respostas a Mamãe e bebês – parte II

  1. Pingback: Da maternidade à casa de repouso: uma gaiola para cada fase da vida | Rato de Casa

  2. Kendra diz:

    Pode colocar o macho com a femea e junto com os filhotes ?

    Liked by 1 person

    • Olá Kendra. Colocar o macho junto com a fêmea e seus filhotes não é uma boa ideia. Primeiro porque, logo após o parto, ela já está pronta para conceber novamente. Uma cria tão próxima à primeira pode forçar demais o organismo dela. Outro motivo é que não podemos prever o comportamento do pai com relação aos filhotes. Alguns machos até ajudam, mais é comum matarem a cria, por ciúmes, estresse, ou outros fatores desconhecidos. Na dúvida, é melhor separar.
      Também, não é saudável ter macho e fêmea sempre juntos, a não ser que um deles seja castrado ou esterilizado. Uma fêmea que tenha mais de duas crias na vida não vive muito tempo. É muito estressante.

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