A descoberta do mundo

Por Luiz Henrique.

Nós, humanos, temos um desenvolvimento um tanto diferente dos outros mamíferos. Temos uma infância longa, que vai até os 12 anos, mais ou menos, e uma adolescência ainda maior, que começa por volta dos 12 anos e pode ir até os 20 anos. (Em alguns casos, pode ir até os 40.) Mas, ao menos fisicamente, nascemos já parecidos com nossos pais. Daí em diante, passamos por várias fases no desenvolvimento físico e cognitivo, que caracterizam nossa jornada à vida adulta. Mas e os ratos? Com os ratos, é tudo muito diferente. Quando nascem, parecem não estar prontos. E, em muitos aspectos, não estão mesmo. Neste post, quero guiar você pelas fases no desenvolvimento de um rato, contando alguns aspectos desse caminho deles, do nascimento à vida adulta.

bebe

Borrachinha

Quando nascem, os ratos são umas coisinhas sem pelo, parecidas com borrachinhas cor-de-rosa. Não parecem em nada com os adultos que vemos por aí. Eles têm sensação tátil em apenas algumas partes do corpo, normalmente associadas aos lugares em que a mãe os pega para carregá-los, são capazes de sentir diferenças de temperatura, sabem quando estão inclinados (e quanto) e um pequeno, mas funcional, olfato. Os ouvidos e olhos estão fechados. As narinas estão abertas, mesmo porque precisam delas para respirar – ratos não respiram pela boca (ao contrário de nós).

Apesar de pobre, o olfato é responsável por boa parte da informação que o rato tem sobre o mundo, nessa idade. Ele vai melhorando gradualmente até atingir seu auge, por volta do 17º dia de vida. Para se ter uma ideia de sua importância, é através dele que o pequenino encontra os mamilos da mãe, para poder mamar. Se, por exemplo, lavarmos o ventre da mãe, eles não vão conseguir encontrar os mamilos e não vão mamar, até que seu cheiro volte ao normal. Não tente isso em casa.

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Tyr, Baldur, Loki e Frey

Nessa fase, são completamente dependentes da mãe. Inclusive, precisam de seu estímulo para fazer suas necessidades. É necessário que a mãe estimule a região urogenital para que consigam urinar e evacuar. Ela estimula lambendo a região, higienizando assim o pequenino. Lamber, nesse caso, serve não só para mantê-los limpos e fortalecer os laços afetivos entre mãe e filho. Nessa fase, a mãe tem uma necessidade e um apetite voraz de sódio. A urina dos pequeninos é muito rica em sódio, fazendo com que a mãe tenha bons motivos para lambê-la. Conforme vão crescendo, os rins dos pequenos passam a funcionar melhor e o teor de sódio em sua urina diminui, fazendo com que a mãe perca o interesse na prática. Nesse ponto, eles já são capazes de fazer suas necessidades sozinhos.

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Baldur, com os olhos recém abertos.

Eles são capazes de ouvir algumas poucas coisas, mas o canal auditivo só se abre mesmo lá pelo 12º dia. Nesse ponto, começam a ficar mais espertinhos. Aliás, entre o 10º e o 15º dia, muita coisa acontece na vida do pequenino. É nesse período que ele descobre o mundo. Por volta do 10º dia, eles começam a engatinhar. Por volta do 12º, começam a andar. Com quinze dias, estão correndo por aí. É no 15º dia que os olhos se abrem. Antes disso, conseguem perceber iluminação. Normalmente, eles fogem de fontes de luz. A visão em si ainda demora um pouquinho para amadurecer. O fato de terem aberto os olhos não significa que consigam definir padrões em uma imagem. Mas eles já enxergam o suficiente para começar a fazer travessuras.

É nessa época que começam a se aventurar fora do ninho. Acompanham a mãe para aprender o que devem ou não comer, como devem se comportar, etc. Vão aos lugares onde os adultos se reúnem para comer e também aprendem com eles. Começam a associar os alimentos que consomem a sensação de bem-estar ou mal-estar e começam a conhecer os outros membros da família. No fim da noite, é hora de voltar para casa e mamar mais um pouco.

Para nós, é normal o fato de não nos lembrarmos dos primeiros meses de nossas vidas. Quanto aos ratos, existem evidências que apontam na direção de que essa fase de amnésia infantil dura até o décimo oitavo dia. Em sua vida adulta, um rato não terá consciência do que acontecer até por volta deste dia.

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Almoço de domingo em família.

Até então, são bem desengonçados. A capacidade motora de seus membros não está bem desenvolvida. É por volta do 18º dia que passam a sentar-se para comer. Ficam com as perninhas espalhadas para os lados. Não é a mesma posição em que os adultos comem. Os meninos conseguem sentar-se como gente grande por volta do 21º dia e as meninas, por volta do 24º. É aí que as pernas (as patas traseiras) estão quase completamente desenvolvidas.

É difícil comer se você não consegue sentar direito.Por volta do 19° dia, os pequenos tentam fazer como os adultos – sentar, pegar a comida com as mãozinhas e comer. No começo, é um desastre. Depois eles melhoram. Mas só vão conseguir fazer como os adultos, lá pelo 26º dia.

Isso de ter pernas ágeis e bem desenvolvidas é importante. Lá pelo 17º dia, a pestinha mal consegue se sentar, mas já consegue roubar a comida do irmãozinho. Este é um comportamento bastante comum. Eles não conseguem evitar, com eficiência, que a comida seja roubada até que suas pernas fiquem mais ágeis, por volta do 25º dia. A estratégia universal para evitar que o irmãozinho roube a comida de suas mãos é esperar que ele se aproxime bastante, para então girar o corpo em meia volta. Com pernas bem desenvolvidas, isso é fácil.

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Syf, sentadinha pra comer.

É hora de por em ação as novas habilidades motoras. É nessa fase que eles começam a brincar de lutinha e se embolar o tempo todo. Já não se interessam mais em mamar e as atenções se voltam mais uns para os outros. A adolescência chegou.

Atingem a maturidade sexual por volta do 40º dia. Nessa fase, as lutinhas começam a ficar bem sérias e se tornam disputas. Parecem violentas mas, em geral, não são. É o comportamento normal e saudável para eles. Isso também ajuda a fortalecer vínculos afetivos.

Por volta do 60º dia, atingem a idade adulta. As lutinhas se tornam menos frequentes. Mas se forem criados com amor e carinho, sempre serão brincalhões e nunca abandonarão a “criança interior”. Continuarão a experimentar a felicidade que traz uma brincadeira, até o fim de seus dias.

Para saber mais, confira nosso post “O mundo, segundo os ratos”.


O conteúdo deste post foi baseado em experiências pessoais e em informações contidas nos capítulos 25 e 26 do livro “The Behavior of the Laboratory Rat – a handbook with tests”, editado por Ian Q. Whishaw e Bryan Kolb, da Oxford University Press, em 2005.

 

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2 respostas a A descoberta do mundo

  1. Caroline diz:

    Parabéns pelo site! Era tudo o que nós, tutores de ratos, precisávamos! ❤ Estou devorando os posts. E sempre dou uma olhadinha nas referências, é um aprendizado e tanto aqui. :3
    Gostaria de saber como posso adquirir o livro “The Behavior of the Laboratory Rat – a handbook with tests”? Sou estudante de Medicina Veterinária, mas não consegui achar na biblioteca da minha faculdade. :/

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    • Olá Caroline. Que bom saber que está gostando do site. O livro que você mencionou pode ser encontrado na Livraria Cultura, por exemplo, ou na Amazon. Mas o preço é um pouco salgado. Dependendo de onde você more, talvez valha a pena procurar um usado, em um sebo ou em alguma dessas livrarias virtuais. É um pouco difícil de achar, mesmo. Dependendo de sua faculdade, você pode sugerir que a biblioteca efetue a compra. Obrigado dos elogios!

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