Algumas doenças não muito conhecidas

Por Luiz Henrique.

A gente cuida, faz de tudo pela saúde dos nossos filhotes, mas às vezes eles adoecem de um jeito, que é difícil saber o que há de errado.

Um grande desafio para quem cuida de ratos é o fato de que eles fazem de tudo para esconder que estão com algum problema de saúde. É um comportamento típico de animais que, na vida selvagem, são presas. Predadores procuram por indivíduos que sejam mais fáceis de pegar. É a lei do menor esforço. Assim, demonstrar fraqueza pode significar tornar-se alvo de um predador. Se o seu rato está visivelmente doente, é porque a coisa é séria.

Uma estratégia para evitar que uma doença passe despercebida é acompanhar o peso deles. Já discutimos sobre isso, aqui. Mas, às vezes, eles começam a perder peso, ficar abatidos e tristonhos, sem razão aparente. E é só aparência – sempre há uma razão por trás disso.

Um problema conhecido em outros bichinhos de estimação, mas que pode passar despercebido em ratas, é a piometra. Se a ratinha nunca cruzou na vida, chega um certo momento em que podem ocorrer mudanças no interior de seu útero que facilitam a proliferação de bactérias, causando uma infecção. Essa infecção, por si só, já é séria e, se não for tratada, pode agravar-se muito, atingindo outros órgãos e levar à morte. A menina perde peso, fica amuada e uma secreção purulenta que sai de sua vagina pode denunciar a piometra. Uma visita ao veterinário deve resolver o problema. A questão é que as coisas nem sempre transcorrem assim. Pode acontecer de ela ter uma piometra “fechada”. A passagem do útero à vagina permanece fechada, fazendo com que a secreção se acumule no útero. A menina perde peso, fica amuada e, às vezes, com a barriga inchada. Sem tratamento, o útero pode se romper e a secreção vai parar dentro do abdômen. É parecido com o que acontece quando um apêndice se rompe por causa de apendicite – isso mata muito rápido. O diagnóstico de uma piometra fechada é muito difícil.

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“Tum-tum, tum-tum, tum-tum..”    – Frey

Outros problemas que são muito difíceis de detectar são os cardíacos. Ratos têm muitos problemas respiratórios e é comum que, por causa deles, se sintam mais cansados, tenham aquele ronco característico e fiquem amuados. Mas estes também são sintomas de problemas cardíacos, que precisam de atenção. É preciso um veterinário experiente para o diagnóstico correto. Um destes problemas é a síndrome de Marfan. É uma condição genética que afeta a produção de fibrilina e, portanto, uma série de tecidos no corpo. Em humanos, há alterações no esqueleto da pessoa, fazendo com que a identificação não seja difícil. Em ratos, essas alterações não são muito pronunciadas, dificultando o diagnóstico. Invariavelmente, a deficiência de fibrilina vai causar alterações no coração que levam à insuficiência cardíaca, com sintomas parecidos aos de uma infecção respiratória. Se não for tratada, pode levar a hipertensão arterial e a aneurisma da aorta (aquela artéria enorme que sai do coração), que pode causar a morte. Como é uma condição de nascença, não existe cura. Mas o controle da pressão arterial é fundamental.

Ainda assim, alguns ratos podem não ter síndrome de Marfan e exibir os mesmos sintomas (com mesmas consequências) de insuficiência cardíaca. Ratos da linhagem Brown-Norway têm alta incidência de permanência do canal arterial. Quando estamos dentro do útero de nossas mães, não dependemos de nossos pulmões para respirar. O oxigênio nos é entregue pelo cordão umbilical. É vantajoso, nessa época, que haja uma comunicação entre a aorta e a artéria pulmonar. Após o nascimento, passamos a depender dos pulmões para o fornecimento de oxigênio. O sangue que passa pela artéria pulmonar é pobre em oxigênio e o que passa pela aorta é rico em oxigênio. O canal arterial empobrece o sangue da aorta em oxigênio. O problema é que a aorta entrega sangue (com oxigênio) para o corpo inteiro. O canal precisa se fechar, ou a pessoa terá sérios problemas na distribuição de oxigênio. Isso leva à insuficiência cardíaca. Em humanos, caso o canal não se feche sozinho, é necessário cirurgia. Em um artigo da revista Nature, pesquisadores afirmam que a incidência da permanência deste canal é enorme em ratos Brown-Norway. Todos os estudados apresentavam esta condição. Em contrapartida, nenhum dos ratos Wistar a apresentava. É uma condição genética, que afeta a produção de elastina naquela região (importante para que o canal se feche), que depende fortemente da linhagem. Nestes casos, não é possível (ou melhor, talvez não seja viável) fazer cirurgia, mas a pressão arterial deve ser mantida sob controle, com medicação.

Com a popularização dos ratos como animais de estimação, problemas de saúde ligados às linhagens começam a se tornar importantes. Hoje, as diferenças ocorrem entre linhagens. Amanhã, essas linhagens podem dar origem a diferentes raças. Com criadores introduzindo ratos de origens diferentes (diferentes dos Wistar, comumente encontrados nos laboratórios nacionais), é necessário que os profissionais de saúde estejam sempre atualizados em seu conhecimento.

Se seu bichinho tiver alguns desses sintomas, leve-o ao seu veterinário de confiança. Não perca tempo procurando dicas na Internet. Nada substitui uma consulta.

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