Cuidando de um rato aposentado

Por Aline Pêgas
 
1024px-Wistar_ratVocê já pensou em adotar um rato de laboratório? Essa semana vamos falar sobre como cuidar de ratos que participaram de experiências científicas. Eu gostaria de dizer que esses ratos são verdadeiros heróis, cheios de coragem e bravura, mas eles nunca tiveram escolha. Nós os usamos indiscriminadamente para o nosso próprio benefício e depois nos dispomos deles. Uma enorme quantidade de medicamentos para humanos é testada em ratos, mas você não vai encontrar medicamentos que tratem as doenças deles em nenhuma farmácia. Segundo a lei brasileira, dependendo do tipo de experimento, é preferível que, ao término da experiência, o animal seja adotado do que eutanasiado. A dívida que temos com os ratos nunca será paga, mas melhorar a vida de alguns deles e dar uma aposentadoria digna para quem deu a vida por nós é o mínimo que podemos fazer.

Você está pronto para adotar um rato de laboratório?

Antes de mais nada, vamos falar dos desafios que você deve esperar caso decida adotar um rato de laboratório. Aqui vão algumas perguntas que você deve se fazer antes de decidir adotar:
  1. Você pode arcar com o custo financeiro? Ao término de um experimento, geralmente o rato já tem 1 ano de idade. Além disso, ele viveu em confinamento, o que é prejudicial à saúde. O tipo de experimento pode provocar problemas de saúde. Ele pode ter predisposição genética a certas doenças. Tudo isso significa uma conta alta no veterinário. Isso nos leva à segunda pergunta.
  2. O lugar onde você mora tem um veterinário especialista em ratos? Ratos de laboratório já sofreram o suficiente, eles merecem atendimento veterinário especializado. Se ele ficar doente, você vai precisar de um veterinário que entenda do assunto pra tratá-lo.
  3. Você tem espaço suficiente? Ele não poderá ficar na mesma gaiola dos seus outros ratos. Caso ele já tenha um companheiro você pode adotar os dois e deixá-los juntos, mas se ele sempre esteve sozinho é aconselhável não mudar essa situação.
  4. Você está psicologicamente preparado? Adotar um rato de laboratório é difícil. É possível que ele nunca se acostume com humanos e odeie você pelo resto de seus dias. É possível que fique muito doente e precise ser medicado todos os dias. É possível que seja muito carente e precise de atenção durante várias horas no dia. Mas também é possível que se torne um rato amoroso e feliz. Você precisa estar preparado para qualquer coisa.
Eu espero que essas perguntas não tenham desanimado muitos de vocês. Esses ratos precisam de nós.

Phobos e Deimos

Nós adotamos dois ratos de laboratório. O Phobos e o Deimos participaram de um experimento em uma universidade como parte de uma disciplina de psicologia behaviorista. O experimento em questão tem fins didáticos e é completamente desnecessário, uma vez que foi documentado em vídeo inúmeras vezes (sempre com o mesmo resultado) e também pode ser substituído por uma simulação com o uso de um software, mas essa é outra discussão. Eles eram submetidos a períodos de 48 horas sem água, após os quais eles tinham que apertar uma barrinha para receber uma quantia de água muito menor do que a que eles precisavam. Ao término da disciplina eles foram resgatados por uma aluna do curso, que os deu pra nós.

Quando eles chegaram aqui, ambos sofriam de pneumonia severa e estavam muito magros. A aluna que os resgatou não sabia como cuidar deles e os mantinha em ambiente externo com pouca higiene. O Phobos estava com a ponta do rabo quebrada, e o Deimos teve a ponta do rabo arrancada por conta de manuseio incorreto. O ossinho do rabo estava para fora e ele sentia muita dor. Foram semanas dando antibióticos para dois ratos que estavam aterrorizados. Eles tinham diarréia toda vez que iam tomar remédio, de medo. Foram muitas mordidas e arranhões, mas eles melhoraram.
Eles se recuperaram e se tornaram ratos extremamente fofos o carinhosos. O Phobos faleceu recentemente, com quase 3 anos de idade. O Deimos está bem, e passa boa parte do dia comigo fora da gaiola. Mesmo assim, o Deimos tem o reflexo de morder algum dedo que apareça desavisado na gaiola. É trauma.
 

Eu estou pronto! Quero adotar!

Supostamente, deveria ser fácil entrar em contado com biotérios e universidades que utilizam os ratos para pesquisa e adotá-los, mas não é. Todos os lugares que eu conheço simplesmente praticam a eutanásia. O que você pode fazer é entrar em contato com esses lugares e tentar convencê-los a seguir a lei. Lembrando que não é toda experiência que permite que o animal seja adotado depois. É bastante comum as universidades utilizarem ratos em departamentos de psicologia em disciplinas de behaviorismo. Se você conhece algum aluno de psicologia pergunte sobre isso. Adotar esses animais é importante, mas é mais importante que a utilização de animais em situações desnecessárias como essa pare.
Vamos então a algumas dicas sobre como cuidar desses ratos:
  1. Antes de trazê-los pra casa, procure saber por que tipo de experiência passaram. Isso pode te dar alguma idéia de que tipo de trauma eles podem ter. Quando o Phobos e o Deimos chegaram eu deixava duas garrafinhas de água na gaiola, sempre cheias. Eles bebiam água desesperadamente.
  2. Assim que eles chegarem na sua casa, marque uma consulta com o veterinário. Como você não os conhece, um check up completo é importante. Talvez você tenha ouvido falar que ratos de laboratório não tem micoplasmose. Isso não é verdade. Realmente, alguns ratos de laboratório em específico, são criados de maneira que não tenham micoplasmose. Não são todos, e não é o mais comum.
  3. No começo a gaiola deve ser simples, espartana. O rato de laboratório não está acostumado com um ambiente grande e rico. Colocá-los imediatamente em uma gaiola radicalmente diferente do que estão acostumados pode gerar muito estresse. Comece com uma gaiola sem brinquedos, com uma casinha para abrigo, água e a ração que já estavam acostumados. Provavelmente labina. Apesar de simples, a gaiola deve ser de tamanho adequado. Veja nosso post Lar doce Lar.
  4. Tenha MUITA paciência. Não tente pegar o rato no colo ou fazer carinho logo de cara. Converse com ele e espere que ele se acostume com a sua voz.
  5. Se o rato morder, respeite o trauma dele. Avise quando chegar perto da gaiola para trocar a comida e a água. NUNCA grite com o rato, segure pelo rabo ou faça movimentos bruscos. A palavra aqui é paciência.
  6. Quando você perceber que o rato já confia em você como alguém que o alimenta, pode começar a oferecer outras comidinhas. Se quiser trocar a ração, faça aos poucos. O Phobos e o Deimos comem Equilíbrato. O petisco favorito deles é castanha do pará; se apaixonaram desde a primeira vez.
  7. Quando você perceber que o rato já se sente seguro na gaiola, pode começar a colocar brinquedos, redes e outras coisas. Nada radical, um pouco de cada vez.
Espero que esse post incentive mais pessoas a cuidar de ratos de laboratório aposentados e a lutar pelos direitos deles. Nós estamos disponíveis para tirar quaisquer dúvidas. Você pode entrar em contato pelo link ou pela nossa página no facebook.
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Sobre Aline Pêgas

https://alinepegas.com.br
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5 respostas a Cuidando de um rato aposentado

  1. Pingback: Histórias de Família II | Rato de Casa

  2. Anónimo diz:

    Eu já criei ratos após o experimento. Após minha aula de psicologia, o trouxe para casa. Contudo, na universidade que cursei os ratos, apesar de ficarem 48 horas sem água (realmente desnecessários) estavam bem nutridos e sem doenças. O meu viveu até 3 anos, era uma graça!

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  3. Oi Aline, uma amiga aqui que estuda psicologia na Unisinos me disse que desde 2010 é proibido fazer testes com ratos, que é tudo feito no computador. Agora fique na dúvida…

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