Como medicar um rato

Por Aline Pêgas

Se você já teve que dar remédios para um rato, sabe que não é fácil. Nossas bolinhas de fofura são ágeis, inteligentes e criativas na hora de se esquivar do remédio. Nesse post você vai aprender algumas técnicas para facilitar a sua vida na hora de cuidar dos seus ratos quando eles precisarem de medicamentos.

Uso oral

Remédios líquidos

Na minha experiência, remédios líquidos de uso oral são os mais fáceis de administrar. Isso não quer dizer que é fácil. Sempre que possível eu peço para o meu veterinário uma receita que eu possa mandar manipular. No remédio manipulado você pode pedir um gostinho que seja agradável para o rato. Aqui em casa o sabor mais popular é baunilha. Morango é geralmente detestado. Nunca misture o remédio na água do bebedouro para o rato tomar aos poucos, porque você não tem como garantir que ele vá tomar a dose inteira. Além disso, muitos remédios precisam que a dose seja administrada inteira de uma vez. Vamos então às dicas.

  1. Primeiro, tente dar na colher. Poucas vezes isso funcionou pra mim, mas quando dá certo é o paraíso. Coloque o remédio em uma colher e ofereça para o rato. Pense em como você daria remédio para uma criança pequena. Diga que é gostoso, faça festa, crie um clima legal. Se o rato pensar que está ganhando um agrado, ficará mais inclinado a tomar o remédio. Colocar gotinhas no seu dedo e dar para o rato lamber também pode funcionar.
  2. Não funcionou? O próximo passo é tentar disfarçar o remédio com uma comidinha especial. Como o rato precisa tomar o remédio, vale usar ingredientes que você geralmente não ofereceria para o rato. Coisas que funcionaram aqui em casa foram: papinha de maçã ou banana, leite, ensure e danoninho.
  3. A seringa. Se o rato não quer tomar o remédio voluntariamente, você terá que obrigá-lo a tomar. A seringa é o jeito mais fácil de fazer isso. Mesmo que a dose seja alta e você precise encher a seringa mais de uma vez, use uma seringa de 1ml. Essas seringas são usadas para insulina e podem ser encontradas já sem agulha em farmácias ou lojas de produtos hospitalares. Se você colocar muito líquido de uma vez na boca do rato ele vai cuspir (ou pode até se afogar). A quantidade ideal por vez é 0,1ml. Com essa quantidade ele geralmente não consegue cuspir e engole o remédio. É preciso muita paciência pra dar de pouquinho em pouquinho. Não espere que o rato fique quietinho pra você dar o remédio com a seringa. Talvez você precise segurá-lo com firmeza. Eu geralmente seguro o rato contra o meu peito com uma mão e dou o remédio com a outra (como no vídeo), mas se o rato estiver determinado a não tomar o remédio você pode precisar da ajuda de outra pessoa para segurar o rato.

Comprimidos

Não tente dar o comprimido para o rato mastigar, não vai funcionar. Mesmo que ele pegue o comprimido, você não tem como garantir que ele não vai segurar ele na boca por um tempo e depois cuspir quando você não estiver olhando. O jeito é macerar o comprimido, misturar com um líquido e administrar como um remédio líquido comum.

  • Como macerar comprimidos: Depois de muita tentativa e erro, cheguei a um método bastante eficiente: Corte o comprimido e partes menores com uma faca ou estilete, coloque os pedaços entre duas colheres iguais e pressione uma contra a outra fazendo movimentos circulares para macerar o comprimido. O resultado deve ser um pó fino. No caso de comprimidos revestidos isso pode ser um pouco mais difícil, você pode precisar raspar o revestimento com uma faca primeiro.
  • Com o que misturar: O mais fácil é se você conseguir misturar com uma papinha ou outra comidinha gostosa. Se não der certo, misture com água ou outro líquido e puxe com a seringa para administrar. Sempre pergunte ao veterinário se o medicamento em questão pode ser misturado com água/leite ou o que você decidir usar.

Uso tópico

Sempre pergunte ao veterinário se tem problema o rato lamber o medicamento. Remédios de uso tópico sempre são lambidos. Caso isso seja um problema, você vai ter que segurar o rato até o medicamento secar ou fazer um curativo para que ele não tenha acesso à área. Curativos serão o assunto de outro post no futuro.

Sprays e Aerossóis

Se você tiver escolha entre um spray líquido comum e um aerossol, sempre escolha o spray. O barulho do aerossol é extremamente irritante para os ratos. Os meus também não são muito fãs de spray, mas eles toleram. Abra o pelo no local onde você precisa passar o spray para ter certeza que ele vai chegar na pele. Lembre-se de proteger os olhos e ouvidos.

Pomadas

Assim como no caso dos sprays, abra os pelos da região onde você irá passar a pomada pra garantir que ela vai chegar na pele. O tratamento de pododermatite geralmente envolve pomadas. Para passar pomadas nos pés pode ser mais fácil segurar o rato no colo e puxar o pezinho dele para trás, do que tentar passar a pomada com ele de barriga para cima.

Pode também existir a necessidade de inalação. Num outro post ensinaremos passo a passo como montar uma câmara de inalação em casa.

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Câncer

Por Luiz Henrique.

De repente, aparece uma bolinha crescendo no rato. Bate aquele desespero. O que será?

cancer

Var – venceu o câncer duas vezes

Bolinhas crescendo podem ser muitas coisas. Pode até ser um tumor, mas geralmente não é. Algumas linhagens de ratos têm mais tendência a desenvolver tumores do que outras. A idade também é um fator de risco. É um fato que a exposição prolongada ao estrogênio aumenta as chances de tumores aparecerem. Isso significa que fêmeas que nunca cruzaram (que, portanto, não produzem outros hormônios protetores) têm mais chances de desenvolver tumores do que machos, fêmeas que já deram cria alguma vez ou fêmeas que foram esterilizadas cedo (mas não muito cedo!). Em outras palavras, são muitos os fatores que influenciam no aparecimento de tumores. Antes de vermos o que é um tumor e de nos aprofundarmos um pouco mais nos sintomas e em seu desenvolvimento, vamos ver um pouco sobre inchaços que não são tumores.

Abcessos

Abcessos são infecções que formam bolsas de pus. Normalmente aparecem na pele e crescem muito rápido. Como estão dentro da própria pele, movem-se junto com ela. Se o rato estiver medicado, ou a infecção se resolve ou a bolsa estoura, liberando o conteúdo e cicatrizando. De qualquer modo, não há grandes riscos. O problema real é quando o abcesso é dentário. A infecção pode ficar muito séria e é preciso agir rápido para que ele não perca nenhum dente. Seja qual for o caso, é sempre bom um veterinário dar uma olhadinha.

Cistos

Cistos são glândulas sebáceas inflamadas na pele. Elas entopem e inflamam. É como se fosse uma acne, só que maior. Não cresce tão rápido quanto um abcesso, mas cresce mais rápido do que um tumor. Pode se resolver sozinho ou com ajuda de medicação.

Glândulas entupidas

Algumas glândulas, como as salivares e as de Zymbal, podem entupir-se e inflamar. Glândulas de Zymbal são glândulas que ficam abaixo das orelhas e secretam óleos para os ouvidos. Inchaços repentinos na região do pescoço são causados, na maioria das vezes, por entupimento destas glândulas. Esses entupimentos dificilmente saram sozinhos. É preciso chamar um veterinário.

Nódulos linfáticos entupidos

O sistema linfático é responsável por drenar líquidos e gorduras das células e jogá-los de volta ao sistema circulatório. Também tem uma importante função imunológica. O fato é que, às vezes, nódulos (que são pequenas bolsas nesses vasos) entopem. O líquido acaba se acumulando ali e ele incha. Isso pode ser muito rápido ou pode acontecer lentamente. Dependendo do caso, ele desincha sozinho. Mas algumas vezes o acúmulo é grande demais e pode ser necessário drenar. Se for recorrente, pode ser necessária uma pequena cirurgia para a remoção do trecho problemático. Só quem pode avaliar isso é um veterinário experiente.

Neoplasia

A neoplasia é o crescimento descontrolado de um determinado tecido. Os tumores surgem assim. Vejamos o mecanismo por trás do aparecimento da neoplasia. Tecidos saudáveis estão sempre se renovando. As células se dividem para repor as que morreram – o que ocorre naturalmente. Quando uma célula se divide, ela faz uma cópia de si mesma. Agora, faça a experiência. Pegue um texto em preto-e-branco e tire uma cópia (tipo “Xerox”). Pegue esta cópia e faça uma nova cópia. Faça isso várias vezes, sempre copiando a última cópia. Depois de um certo número de cópias, a imagem está bem deteriorada. O mesmo acontece com as chaves de casa. Todo mundo sabe que a cópia da cópia da cópia da chave dificilmente vai funcionar. O que a célula copia, ao se reproduzir, é seu código genético. Até certo ponto, ele tem mecanismos para corrigir erros de cópias, mas chega um ponto em que isso não é mais possível. Um dos papéis do código genético é manter um mecanismo que mantenha a divisão celular sob controle. Se essa parte do código não estiver funcionando bem, as células daquele tecido vão começar a se multiplicar descontroladamente. Devido a esse descontrole, mais erros de cópias aparecem e as células filhas não são mais saudáveis, não conseguem mais desempenhar seu papel. Isso é neoplasia.

A neoplasia é classificada de acordo com o tecido em que ela acontece. Ela pode acontecer na medula óssea, que dá origem a células sanguíneas. Como essas células não ficam paradas em um lugar, não há a formação de um tumor. É o caso da leucemia. No sangue, a parte “sólida” é composta de plaquetas, que são restos de células que ajudam na coagulação, células vermelhas, que transportam oxigênio dos pulmões para as células e gás carbônico das células para os pulmões, e células brancas, que são o exército do sistema imunológico – a infantaria que combate as infecções. A leucemia é uma produção descontrolada de células brancas. Elas não só não conseguem desempenhar seu papel muito bem (pela falta de qualidade que mencionei), como seu grande número atrapalha o serviço das células vermelhas, que são essenciais para que as células do corpo respirem. O corpo se enfraquece e o sistema imune fica comprometido.

Quando a neoplasia acontece em tecidos “fixos”, ela dá origem a tumores. A neoplasia de tecidos mais internos é chamada de sarcoma. É o caso de tumores em ossos, cartilagens, gordura, músculos, tecidos do sistema circulatório e linfático, etc. Quando acontece em tecidos mais externos, é chamada de carcinoma. Veja que a parte de dentro do pulmão é, na verdade, parte de fora do corpo! A parede do pulmão faz divisa entre o corpo e o ar, que está fora. O mesmo acontece com intestinos. A parte de dentro do intestino fica em contato com o bolo alimentar, que está fora do corpo. Carcinomas são comuns na boca, pele, mama, pulmão, intestino, estômago, pâncreas, rins, útero, ovários, etc. Muitos tumores que aparecem em glândulas são assim.

Tumores benignos

Às vezes, a neoplasia forma uma massa “bem comportada” de células de um mesmo tecido, que podem até lembrar, em aparência, as células que deram origem a elas. Ficam confinadas em uma determinada região, em uma cápsula. Enquanto não crescerem de forma mais agressiva ou não prejudicarem tecidos vizinhos (seja porque seu tamanho exagerado pressiona os arredores ou porque essas células são muito comilonas, matando os vizinhos de fome), não há muitos problemas. Do contrário, será necessário remover. Esses tumores não são tão agressivos e, por isso, são chamados de benignos. Mas requerem muita atenção.

Tumores malignos

Às vezes, a neoplasia dá origem a células que não se confinam em uma região. É difícil saber qual foi o tecido que deu origem ao tumor e ele cresce agressivamente. É comum que não tenha uma cápsula. Ele vai tomando os tecidos vizinhos e se espalhando, inutilizando, por vezes, órgãos inteiros. Se alguma dessas células se desprender dessa massa, pode parar em outro tecido e lá dar origem a outro tumor. O câncer se espalha.

Sintomas

Nem sempre um tumor é aparente. Quando é uma bolinha na pele ou na mama, é fácil identificar. Mas e se for mais interno?

Abcessos frequentes e nódulos linfáticos frequentemente entupidos podem indicar a presença de câncer. Mas há outros indicativos, mais específicos. Um deles é a existência de uma “infecção” que não cura com nada. Na verdade, só os sintomas são de infecção – o problema mesmo é câncer. Recentemente, perdemos a Kali, assim. Ela começou a apresentar sintomas de infecção intestinal. Chamamos nosso veterinário, que já ficou meio desconfiado, mas achou melhor tentar um tratamento para infecção. Tentamos o tratamento por quatro dias, sem efeito. Ele resolveu que seria melhor operar. Na operação, descobrimos que o câncer já havia tomado tudo. Ela não resistiu à cirurgia. E não havia o que fazer. De termos notado um comportamento estranho à cirurgia, não foi mais do que uma semana. Ela comia normalmente, estava com peso normal, tudo certo. Quando começou a reclamar de dor, já era tarde demais. Ela era uma menina muito valente.

Há ainda um tipo de tumor que aparece grudado na parede do coração. Ao crescer, ele pressiona os pulmões e dá a impressão de que há uma infecção respiratória, ou alergia. O bichinho tosse, ronca e assovia quando respira. Se cansa com facilidade. Come pouco, pois o tumor chega a pressionar o esôfago, dificultando a passagem de comida, o que deixa o ratinho magro. Em um dado momento, o tumor acaba ferindo os pulmões, que se enchem de líquido e o coitadinho morre asfixiado.

Pode acontecer do tumor aparecer na hipófise, uma glândula que fica junto ao cérebro. Ao crescer, ele começa a pressionar o cérebro e o rato começa a perder o controle dos movimentos das pernas e braços, a perder o equilíbrio, a parecer confuso, etc., como se tivesse tido um AVC (acidente vascular cerebral). Não cuida mais de sua higiene, porque não consegue mais se equilibrar e movimentar os braços. Os braços ficam rígidos, o que dificulta sua alimentação. Eles vão precisar de cuidados o tempo todo.

Como são internos, esses tumores só podem ser detectados com a ajuda de um aparelho de imageamento, como um ultra-som, por exemplo. Se detectados a tempo, é possível tomar atitudes para aumentar a qualidade e a expectativa de vida dos bichinhos. E lembre-se de que tempo para eles é crucial. O metabolismo alto que eles têm faz com que o desenvolvimento desses problemas seja muito rápido.

Por isso, qualquer coisa “fora do normal” requer a ida a um veterinário. Pode não ser nada, mas se for, essa ida pode salvar a vida do seu companheiro. No caso de tumores, quanto mais cedo for tomada uma atitude, melhores são as chances de uma recuperação total. Tempo é crucial. Não espere que a doença fique grave, para depois tentar remediar.

 

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Var – completamente recuperada após duas cirurgias

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Um guia sobre ratos para donos de hamsters

Roedores são animais fantásticos. No Brasil, os ratos estão apenas começando a se popularizar como animais de estimação. Os hamsters são mais conhecidos. Se você têm ratos de estimação provavelmente já ouviu a frase “Mas não é hamster?” muitas vezes. Esse é um post especial para nossos leitores que tem experiência com hamsters e pensam em ter ratos. Vamos tratar de semelhanças e diferenças. Ratos e hamsters tem muitas diferenças importantes, mas a experiência prévia com hamsters tem seu valor.

Anatomia

A diferença mais notável entre hamsters e ratos é o comprimento do rabo. Enquanto hamsters tem um rabinho minúsculo e peludo, ratos tem um longo rabo escamado. Outra diferença importante é que ratos não tem bolsa jugal, aquele saquinho dentro da bochecha do hamster que parece caber tudo e mais um pouco. Isso significa que não adianta dar estender a mão cheia de guloseimas para o rato, ele não consegue pegar tudo e levar pra casa.

Alojamento

Tipicamente, um rato tem três vezes o tamanho de um hamster sírio, mas precisa de mais do que três vezes o espaço de um hamster. Hamsters adoram cavar e se beneficiam mais de espaço horizontal e túneis. Ratos são escaladores, precisam de vários andares e espaço vertical para escalar. Confira nosso post “Lar Doce Lar” para um guia completo sobre gaiolas para ratos.

A forração e outros elementos da gaiola também são diferentes. Para hamsters, o mais comum é usar maravalha (serragem própria) como forração. Como a gaiola do rato tem vários andares, você só precisa de material absorvente nos banheirinhos. A maravalha causa alergia em muitos ratos e não é o material mais indicado. Nosso post “Ensinando seu rato a usar o banheirinho” tem uma lista de produtos indicados e um guia passo a passo de como ensinar bons modos de higiene para os ratos.

Assim como o hamster, é extremamente prejudicial que o rato ande diretamente sobre barras de metal. Entre outras consequências, isso pode levar à pododermatite. Nós colocamos várias ideias de como montar o interior da gaiola no post “Design de interiores”.

Alimentação

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Zoe, nossa fofíssima.

As necessidades nutricionais de hamsters e ratos são muito diferentes. As famílias Muridae e Cricetidae, a quem pertencem respectivamente ratos e hamsters, se separaram a 17 milhões de anos¹. Hamsters e ratos vão a restaurantes diferentes. As rações e mix de sementes para hamsters, além de insuficientes, podem conter ingredientes que fazem mal aos ratos. Nós temos dois posts principais sobre alimentação de ratos: “Alimentação” e “Rações”.

 

 

Vida Social

Hamsters são animais solitários e podem lutar até a morte se forçados a dividir uma gaiola. A situação dos ratos não poderia ser mais diferente. Os ratos são animais sociais e precisam de companhia da mesma espécie para viver bem. Você pode tirar todas as suas dúvidas a respeito no post “Ratos em comunidade”. Se você tiver ratos e hamsters ao mesmo tempo, não deixe eles brincarem juntos. Os dois podem acabar seriamente feridos.

Comportamento

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Odin

Se você é dono de um hamster a pelo menos um ano, eu apostaria que já tomou uma dentada. É assim mesmo, hamsters são um tanto mau humorados (na minha opinião, o mau humor deles uma das coisas mais fofas do mundo). Ratos não são assim, é muito raro levar uma mordida de um rato. Você pode ler mais a respeito no post “Ele me mordeu!”. Em geral, ratos se relacionam de maneira mais pessoal com seus humanos do que os hamsters. Eu diria que hamsters estão para os gatos como ratos estão para os cães. O hamster pode preferir brincar com a rodinha do que com você, e não tem nada de errado com isso, mas os ratos são diferentes. Ratos gostam de contato.

Se você pensa em ter ratos de estimação, a minha última dica é o post “O mundo segundo os ratos”. Esse é meu post favorito. Nele você vai descobrir como os ratos vêem o mundo. Que cores vêem, que sons ouvem, como se comunicam, seu paladar, sua inteligência e muito mais.

Boa semana para todos!

 


¹ Robinson M. – “Molecular phylogeny of rodents, with special emphasis on murids: evidence from nuclear gene LCAT” Mol Phylogenet Evol. 1997 Dec;8(3):423-34.

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Laços de família

Por Luiz Henrique.

Frequentemente, vemos pessoas com dúvidas sobre a segurança de cruzamentos consanguíneos em ratos. Sabemos que, em humanos, isso é bem problemático. Mas e em ratos? Será que é a mesma coisa? Vamos ver, de perto, a questão do inbreeding.

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Monumento em Novosibirsk, Rússia

Charles Darwin estudou a questão da variação de características, dentro de uma mesma espécie, com profundidade. No livro “A Origem das Espécies”, ele faz uma análise comparativa sobre a aptidão à sobrevivência dos filhos, segundo o grau de variação dos pais. Segundo ele, se os pais forem muito diferentes (de gêneros diferentes, por exemplo), dificilmente seus filhos, se chegarem a nascer, serão saudáveis. Por outro lado, se os filhos têm ancestrais com pouca variação (são todos aparentados), a saúde deles pode ser comprometida. Hoje, mais de 150 anos após a publicação deste livro, sabemos com muito mais detalhes o que realmente acontece e que há algumas exceções à esta “regra”. Normalmente, é verdade que muita variação ou pouca variação são prejudiciais, donde os filhos mais saudáveis saem de um meio termo disso. Porém, hoje temos ferramentas poderosíssimas para avaliar essas coisas. Hoje, temos o conhecimento da genética.

 

Cada traço hereditário nosso é codificado em moléculas especiais, dentro de nossas células, o que chamamos de DNA. Esse código genético é dividido em segmentos, como se fossem as palavras de um texto, separados por espaços. Cada trecho desses é chamado gene. Nós, tanto humanos quanto ratos, temos por volta de 30.000 genes. Esses genes ficam organizados em “pacotes” enovelados, chamados cromossomos. Humanos têm 23 pares de cromossomos, ratos têm 21. Note que contamos os cromossomos aos pares. Nós temos 46 cromossomos em uma célula comum do nosso corpo, com 23 tipos diferentes de cromossomos. Assim, cada um tem seu par, semelhante em função. Isso porque herdamos 23 cromossomos diferentes de nossa mãe e 23 de nosso pai. Por exemplo, seu pai tem dois cromossomos com um gene (cada um) para o tipo sanguíneo dele. O mesmo ocorre com sua mãe. Seu pai forneceu um deles para você e o outro veio da sua mãe. Neste cromossomo, o lugar em que fica o gene para uma determinada característica é sempre o mesmo, chamado locus. Neste mesmo locus, o código pode variar um pouco. É por isso que temos vários tipos sanguíneos (A, B, O, AB). Cada variante dessa é chamada alelo. Meu pai tinha tipo sanguíneo A. Minha mãe, tem tipo O. O meu tipo é O, também. O que aconteceu foi o seguinte. Minha mãe tem os genes para o tipo O, ii (dois “i” minúsculos). Meu pai tinha os genes Ai (um para o A, um para o O). Eu fiquei com um dos “is” dele e um da minha mãe, o que resultou em ii, como ela. Meu pai tinha sangue tipo A, porque o A “domina” sobre o i. Pessoas com tipo A podem ter genes AA, ou Ai. No segundo caso, a característica não aparece e dizemos que o gene é recessivo. Suponha que duas pessoas tenham os genes Ai e Ai. As duas têm tipo sanguíneo A. Mas elas podem fornecer aos filhos, tanto o A, quanto o i. Assim, os filhos podem ser AA, Ai ou ii. Ou seja, mesmo os pais sendo, ambos, tipo A, o filho pode nascer tipo O. Essa característica fica “escondida” nos pais. É com esse tipo de característica que os criadores precisam se preocupar. Se uma característica para uma doença for recessiva, ela pode ficar “escondida” nos pais. Eles têm essa característica, mas ela não aparece. Dizemos que eles são portadores dessa característica. Voltando ao caso do tipo sanguíneo, temos ainda outro caso: o tipo B. O tipo B não domina nem é dominado por A, mas domina i. Assim, BB e Bi se expressarão como tipo B. Mas se uma pessoa Ai tiver filhos com uma Bi, podem nascer AB, Ai, Bi ou ii, ou seja, tipo AB, tipo A, tipo B ou tipo O.

Suponha que exista uma doença genética, recessiva. Vamos representá-la pela letra “D”. Assim, um indivíduo DD ou Dd é saudável, enquanto um dd é doente. Pais saudáveis, neste caso, podem ter filhos doentes. Veja só. Se um deles for DD, o filho será saudável, pois basta ter um D para isso. Mas se os dois forem portadores da doença, ou seja, os dois são Dd, os filhos podem nascer com DD, Dd ou dd. Se o alelo “d” é raro na população, será difícil que a doença apareça, pois sempre temos uma grande chance de cruzamentos com indivíduos com DD. Mas se um indivíduo é portador de “d” e cruzamos apenas seus filhos, a chance de aparecer alguém dd é cada vez maior. O cruzamento consanguíneo aumenta a incidência de características recessivas. Note que isso só é ruim, se a característica recessiva é indesejável. Há características recessivas desejáveis. O cruzamento consanguíneo, na verdade, aumenta a homozigose, ou seja, a semelhança entre os genes de um mesmo locus. Isso acontece, porque os filhos podem herdar dos dois lados (por parte de pai e de mãe), um gene que é cópia (ou que veio de) um gene de uma mesma pessoa. Veja a figura abaixo.

inbreeding

Como um neto pode ter um gene de um só avô

Cruzamos os indivíduos A e B. Eles têm três filhos. Cruzamos então o segundo com o terceiro filho. O gene vermelho na última geração é cópia do gene do avô. Um deles recebeu os dois genes do mesmo indivíduo (do avô). Por isso, foi criado um coeficiente, chamado coeficiente de consanguinidade (ou COI, Coefficient of Inbreeding). Ele é a probabilidade de dois genes, em um dado locus, serem cópias de um único gene (de um ancestral). Algumas linhagens de ratos de laboratório possuem um coeficiente próximo a 100%. Ou seja, quase todos os seus genes vieram de um mesmo ancestral (cada um). Nesse caso, quaisquer dois indivíduos da mesma linhagem (e do mesmo sexo) são praticamente idênticos, do ponto de vista genético (chamamos isso de isogenia). Se eles são saudáveis, terão filhos saudáveis, pois os filhos são idênticos aos pais. Não importa se o cruzamento for entre irmãos ou não. Um irmão é geneticamente idêntico a um primo distante – não faz diferença, neste caso.

Nós, humanos, temos muitos problemas com casamentos consanguíneos, porque temos uma variação genética muito grande. Na verdade, somos uma espécie híbrida. Em nosso genoma (pelo menos no meu, que é brasileiro), temos genes vindo de Homo Sapiens, de Neandertais e de Denisovanos. Neandertais e Denisovanos eram outras espécies de hominídeos que se miscigenaram com o Homo Sapiens (na Europa e Ásia), como foi recentemente comprovado por “testes de paternidade” em indivíduos que tiveram seus restos mortais preservados. Esses cruzamentos entre indivíduos de espécies diferentes são problemáticos (nem todos os descendentes são férteis), mas oferece algumas vantagens.

Ratos de laboratório, por outro lado, têm uma variação genética relativamente pequena. São todos vindos, seja de perto ou de longe, dos ratos do Instituto Wistar. Qualquer cruzamento é consanguíneo em algum grau, pois são todos parentes. Isso faz com que a tolerância a cruzamentos entre irmãos seja muito grande.

Por causa dessa tolerância, o cruzamento consanguíneo pode ser usado, como técnica, para fixar características desejáveis e eliminar as indesejáveis. Como esse tipo de cruzamento aumenta a homozigose (os genes idênticos no mesmo locus), os problemas ligados a genes recessivos tendem a aparecer com mais frequência, ao invés de ficarem escondidos. Uma vez identificados, não se reproduz aqueles indivíduos. Com o tempo (e em muitas gerações), pode-se eliminar a propensão a uma determinada doença, por exemplo. Sem esta técnica, a doença se espalharia silenciosamente até alcançar toda a população.

É por isso que recomendamos às pessoas que desejem ser criadores que estudem muito, principalmente sobre doenças hereditárias e técnicas de seleção genética. Abordei o tema de maneira muito simplificada, para fins didáticos. Na prática, uma característica pode ser determinada pela interação de vários genes (que podem estar em cromossomos diferentes). Isso complica bastante o cenário de transmissão e expressão delas.

Para terminar, alguns dados adicionais. Cruzamentos consanguíneos são usados com frequência em várias criações. Um exemplo, um tanto problemático até, é o dos cães. Cães não têm uma tolerância muito boa a cruzamentos consanguíneos, mas conseguimos raças puras com esta técnica. Hoje, um pastor alemão tem um coeficiente de consanguinidade próximo a 45%. A reprodução indiscriminada, por pessoas que não conhecem nada sobre genética, fez com que doenças hereditárias se tornassem comuns nessa raça. A epilepsia é um exemplo. Em cavalos, o coeficiente não passa de 25% (confira estes dados aqui e aqui). No caso de ratos, uma colônia só pode ser chamada de linhagem, se tiver origem em cruzamentos consanguíneos a, no mínimo, 20 gerações. Para se atingir a isogenia (ou seja, indivíduos com coeficiente de consanguinidade próximo de 100%), são necessárias 40 gerações, pelo menos (há muitas informações sobre isso aqui).

Moral da história: cruzamentos consanguíneos em ratos é uma faca de dois gumes. Pode ser desastroso para aqueles que não sabem o que estão fazendo, mas é uma técnica valiosa nas mãos de criadores competentes e responsáveis.

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Cuidando de um rato aposentado

Por Aline Pêgas
 
1024px-Wistar_ratVocê já pensou em adotar um rato de laboratório? Essa semana vamos falar sobre como cuidar de ratos que participaram de experiências científicas. Eu gostaria de dizer que esses ratos são verdadeiros heróis, cheios de coragem e bravura, mas eles nunca tiveram escolha. Nós os usamos indiscriminadamente para o nosso próprio benefício e depois nos dispomos deles. Uma enorme quantidade de medicamentos para humanos é testada em ratos, mas você não vai encontrar medicamentos que tratem as doenças deles em nenhuma farmácia. Segundo a lei brasileira, dependendo do tipo de experimento, é preferível que, ao término da experiência, o animal seja adotado do que eutanasiado. A dívida que temos com os ratos nunca será paga, mas melhorar a vida de alguns deles e dar uma aposentadoria digna para quem deu a vida por nós é o mínimo que podemos fazer.

Você está pronto para adotar um rato de laboratório?

Antes de mais nada, vamos falar dos desafios que você deve esperar caso decida adotar um rato de laboratório. Aqui vão algumas perguntas que você deve se fazer antes de decidir adotar:
  1. Você pode arcar com o custo financeiro? Ao término de um experimento, geralmente o rato já tem 1 ano de idade. Além disso, ele viveu em confinamento, o que é prejudicial à saúde. O tipo de experimento pode provocar problemas de saúde. Ele pode ter predisposição genética a certas doenças. Tudo isso significa uma conta alta no veterinário. Isso nos leva à segunda pergunta.
  2. O lugar onde você mora tem um veterinário especialista em ratos? Ratos de laboratório já sofreram o suficiente, eles merecem atendimento veterinário especializado. Se ele ficar doente, você vai precisar de um veterinário que entenda do assunto pra tratá-lo.
  3. Você tem espaço suficiente? Ele não poderá ficar na mesma gaiola dos seus outros ratos. Caso ele já tenha um companheiro você pode adotar os dois e deixá-los juntos, mas se ele sempre esteve sozinho é aconselhável não mudar essa situação.
  4. Você está psicologicamente preparado? Adotar um rato de laboratório é difícil. É possível que ele nunca se acostume com humanos e odeie você pelo resto de seus dias. É possível que fique muito doente e precise ser medicado todos os dias. É possível que seja muito carente e precise de atenção durante várias horas no dia. Mas também é possível que se torne um rato amoroso e feliz. Você precisa estar preparado para qualquer coisa.
Eu espero que essas perguntas não tenham desanimado muitos de vocês. Esses ratos precisam de nós.

Phobos e Deimos

Nós adotamos dois ratos de laboratório. O Phobos e o Deimos participaram de um experimento em uma universidade como parte de uma disciplina de psicologia behaviorista. O experimento em questão tem fins didáticos e é completamente desnecessário, uma vez que foi documentado em vídeo inúmeras vezes (sempre com o mesmo resultado) e também pode ser substituído por uma simulação com o uso de um software, mas essa é outra discussão. Eles eram submetidos a períodos de 48 horas sem água, após os quais eles tinham que apertar uma barrinha para receber uma quantia de água muito menor do que a que eles precisavam. Ao término da disciplina eles foram resgatados por uma aluna do curso, que os deu pra nós.

Quando eles chegaram aqui, ambos sofriam de pneumonia severa e estavam muito magros. A aluna que os resgatou não sabia como cuidar deles e os mantinha em ambiente externo com pouca higiene. O Phobos estava com a ponta do rabo quebrada, e o Deimos teve a ponta do rabo arrancada por conta de manuseio incorreto. O ossinho do rabo estava para fora e ele sentia muita dor. Foram semanas dando antibióticos para dois ratos que estavam aterrorizados. Eles tinham diarréia toda vez que iam tomar remédio, de medo. Foram muitas mordidas e arranhões, mas eles melhoraram.
Eles se recuperaram e se tornaram ratos extremamente fofos o carinhosos. O Phobos faleceu recentemente, com quase 3 anos de idade. O Deimos está bem, e passa boa parte do dia comigo fora da gaiola. Mesmo assim, o Deimos tem o reflexo de morder algum dedo que apareça desavisado na gaiola. É trauma.
 

Eu estou pronto! Quero adotar!

Supostamente, deveria ser fácil entrar em contado com biotérios e universidades que utilizam os ratos para pesquisa e adotá-los, mas não é. Todos os lugares que eu conheço simplesmente praticam a eutanásia. O que você pode fazer é entrar em contato com esses lugares e tentar convencê-los a seguir a lei. Lembrando que não é toda experiência que permite que o animal seja adotado depois. É bastante comum as universidades utilizarem ratos em departamentos de psicologia em disciplinas de behaviorismo. Se você conhece algum aluno de psicologia pergunte sobre isso. Adotar esses animais é importante, mas é mais importante que a utilização de animais em situações desnecessárias como essa pare.
Vamos então a algumas dicas sobre como cuidar desses ratos:
  1. Antes de trazê-los pra casa, procure saber por que tipo de experiência passaram. Isso pode te dar alguma idéia de que tipo de trauma eles podem ter. Quando o Phobos e o Deimos chegaram eu deixava duas garrafinhas de água na gaiola, sempre cheias. Eles bebiam água desesperadamente.
  2. Assim que eles chegarem na sua casa, marque uma consulta com o veterinário. Como você não os conhece, um check up completo é importante. Talvez você tenha ouvido falar que ratos de laboratório não tem micoplasmose. Isso não é verdade. Realmente, alguns ratos de laboratório em específico, são criados de maneira que não tenham micoplasmose. Não são todos, e não é o mais comum.
  3. No começo a gaiola deve ser simples, espartana. O rato de laboratório não está acostumado com um ambiente grande e rico. Colocá-los imediatamente em uma gaiola radicalmente diferente do que estão acostumados pode gerar muito estresse. Comece com uma gaiola sem brinquedos, com uma casinha para abrigo, água e a ração que já estavam acostumados. Provavelmente labina. Apesar de simples, a gaiola deve ser de tamanho adequado. Veja nosso post Lar doce Lar.
  4. Tenha MUITA paciência. Não tente pegar o rato no colo ou fazer carinho logo de cara. Converse com ele e espere que ele se acostume com a sua voz.
  5. Se o rato morder, respeite o trauma dele. Avise quando chegar perto da gaiola para trocar a comida e a água. NUNCA grite com o rato, segure pelo rabo ou faça movimentos bruscos. A palavra aqui é paciência.
  6. Quando você perceber que o rato já confia em você como alguém que o alimenta, pode começar a oferecer outras comidinhas. Se quiser trocar a ração, faça aos poucos. O Phobos e o Deimos comem Equilíbrato. O petisco favorito deles é castanha do pará; se apaixonaram desde a primeira vez.
  7. Quando você perceber que o rato já se sente seguro na gaiola, pode começar a colocar brinquedos, redes e outras coisas. Nada radical, um pouco de cada vez.
Espero que esse post incentive mais pessoas a cuidar de ratos de laboratório aposentados e a lutar pelos direitos deles. Nós estamos disponíveis para tirar quaisquer dúvidas. Você pode entrar em contato pelo link ou pela nossa página no facebook.
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Direitos e deveres dos ratos

Por Luiz Henrique.

Muitas pessoas têm mostrado preocupações com a legislação, desde o transporte de nossos pequenos amigos, até seu uso em laboratórios. Pensando nisso, resolvemos trazer para vocês uma pequena compilação dos direitos e deveres dos ratos.

Em primeiro lugar, ratos não têm deveres. Eles não devem ter responsabilidade alguma sobre o que for. Sendo assim, vamos aos seus direitos (e de seus tutores). Vocês vão perceber que a legislação brasileira é um pouco esquisita, quando o assunto é companhia não humana.

O transporte

O tempo todo vemos pessoas passeando por aí com seus gatos e cães, seja no carro ou no transporte coletivo. Isso porque, por lei, é permitido que as pessoas levem seus animais de estimação, em veículos particulares ou em caminhadas. Algumas cidades têm leis (municipais, portanto) permitindo que os animais de estimação acompanhem seus tutores no transporte coletivo. Ótimo, para eles. Para nós, nem tanto. Isso porque a lei brasileira classifica como animais de estimação apenas cães e gatos. Outras espécies de animais não são consideradas de estimação. E isso inclui ratos. Por mais surreal que pareça, o transporte de um rato por aí é regido pela mesma legislação que a do transporte de um boi. Para o transporte de animais que não sejam de estimação e ovos férteis, é necessário possuir uma Guia de Transporte Animal (ou GTA – o governo adora siglas). A GTA é emitida por órgãos municipais ou estaduais, ou por médicos veterinários cadastrados, conveniados ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (o MAPA). A GTA contém, entre outras, as seguintes informações:

  • Atestado sanitário do animal. Deve ser emitido por médico veterinário conveniado, com registro no CRMV do ponto de origem do trajeto. Se o seu veterinário de confiança não for cadastrado no sistema de defesa sanitária, o atestado dele não vale – mesmo que seja o melhor e mais experiente veterinário de ratos.
  • Responsável pelo animal. Cada pessoa que carregue um bichinho precisa de uma GTA diferente.
  • Origem e destino do transporte. Isso significa que é uma GTA para a ida e outra para a volta. Se estiver indo de um estado para outro, origem e destino estão sob tutela de CRMVs diferentes. Assim, em geral, o atestado sanitário será emitido por veterinários diferentes (o CRMV é um órgão de abrangência estadual).
  • Descrição do animal, incluindo espécie. Isso significa que se você estiver levando três ratos, dois porquinhos-da-índia e um hamster, vai precisar de três GTAs (pelo menos). Uma para os ratos, uma para os porquinhos-da-índia e uma para o hamster. São seis GTAs, se você pretende trazê-los de volta para casa, portanto.

As exigências para o transporte variam entre estados. Aqui no Paraná, as exigências para o transporte de ratos são as seguintes. Em primeiro lugar,  a GTA, segundo modelo do MAPA. Em segundo lugar, os ratos devem estar acondicionados, nas palavras deles, “em embalagens novas e apropriadas (caixas de transporte, bandejas, etc.). No caso de embalagens reutilizáveis, as mesmas deverão ser previamente lavadas e desinfetadas com produtos registrados.”. Por último, o atestado sanitário, emitido por veterinário inscrito no CRMV/PR.

Dito isso, a obrigatoriedade das companhias aéreas e terrestres de transportar animais é relativa a animais de estimação – cães e gatos. Para transportar ratos em aviões e ônibus, muita conversa é necessária, antes da viagem. Para viagens internacionais, é necessário verificar a legislação do outro país, também. Às vezes, a legislação de províncias, também. Por exemplo, na província de Alberta, no Canadá, ratos são animais proibidos. Umas poucas instituições (geralmente de pesquisa) têm autorização para manter ratos. É proibida a entrada de ratos, alimentar ratos, etc. Como é crescente a criação de ratos como animais de estimação no resto do Canadá, alguns residentes de Alberta tentam mudar essa lei. Mas, sabe como é… Se for viajar, é necessário ver tudo isso.

Eu não sei quanto a vocês, mas eu acho a lei brasileira, sobre o transporte de ratos, absurda. É claro que, enquanto estiver vigente, só nos resta obedecer. Mas está na hora de uma mudança drástica em como vemos e tratamos nossos amigos. Não são apenas cães e gatos que consideramos de estimação. Coloco um outro exemplo. Há, no Senado Federal, um projeto de lei tramitando (PL nº 411/2015) para que animais de companhia de deficientes sejam admitidos em estabelecimentos comerciais e no transporte público, como já é feito com cães-guia, para deficientes visuais. A justificativa é que há cães que auxiliam deficientes auditivos, cães que percebem a iminência de um ataque cardíaco (que acompanham, assim, portadores de condições cardíacas) e cães que auxiliam autistas no controle da ansiedade, principalmente a ansiedade gerada por ambientes com muitas pessoas e estímulos sensoriais. Assim, a lei prevê que qualquer cão, treinado para isso, pode acompanhar seu tutor deficiente. Ótimo, mas e se o autista tiver um rato para controle de ansiedade? Sinto muito, o rato terá que ficar em casa. E posso dizer, em primeira mão, que ratos são muito mais eficientes no controle de ansiedade em autistas, do que cães. Mas é aquela coisa… Animal de companhia é cachorro. Temos que mudar isso.

O uso científico

Muita gente não sabe, mas existe uma lei para isso. É a lei federal nº 11.794 de 8 de outubro de 2008. Lá está descrito a quem compete definir o que é um protocolo aceitável para o uso de animais em experiências científicas. Também está descrito o que é um animal. Para fins legais, um animal é um vertebrado. Ou seja, um polvo não é um animal (para os legisladores). Isso é preocupante, pois polvos são inteligentes e sensíveis e estão completamente desamparados pela lei. O pior, é que tem gente que acha que, por causa dessa lei, pode-se ignorar a lei de crimes ambientais. Em especial, me refiro ao § 1º, art. 32 (da lei 9.605 de 12 de fevereiro de 1998). A lei diz o seguinte,

“Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:

Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.

§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.”

Se você estuda em uma faculdade que realiza tais experiências, ou conhece alguma que realiza, denuncie! A denúncia pode ser feita para a Sociedade Protetora dos Animais mais próxima de você, que a encaminhará para as autoridades competentes.

Abusos

Outro ponto importante da lei de crimes ambientais é a questão da mutilação. Chegaram até nós relatos de que uma casa de venda de animais cortava metade do rabo dos ratos para diferenciá-los dos ratos de rua. Isso é crime. É mutilação de animal exótico, segundo a lei.

A eutanásia pode ser praticada nas seguintes situações (resolução n° 1000 de 11 de maio de 2012, do CFMV – Conselho Federal de Medicina Veterinária):

  • o bem-estar do animal estiver comprometido de forma irreversível, sendo um meio de eliminar a dor ou o sofrimento dos animais, os quais não podem ser controlados por meio de analgésicos, de sedativos ou de outros tratamentos;
  • o animal constituir ameaça à saúde pública;
  • o animal constituir risco à fauna nativa ou ao meio ambiente;
  • o animal for objeto de atividades científicas, devidamente aprovadas por uma Comissão de Ética para o Uso de Animais – CEUA;
  • o tratamento representar custos incompatíveis com a atividade produtiva a que o animal se destina ou com os recursos financeiros do proprietário.

No último tópico, deve ficar claro que a palavra “tratamento” subentende doença. Provocar a morte de animais em qualquer outra situação não é eutanásia, é assassinato. Vale lembrar que, mesmo quando a eutanásia é indicada, apenas um médico veterinário pode efetuá-la. Mesmo que um roedor sirva de alimento a um réptil, ele deve ser sacrificado, de maneira “humanitária”, antes de ser oferecido. É mito isso de que cobras só comem coisas vivas. Eles não precisam estar vivos. Basta que estejam quentes. Oferecer animais vivos como alimento a outros é crime. A única exceção é quando pretende-se retornar o predador à vida selvagem. Aí não tem jeito – ele precisa manter seus instintos de caça aguçados.

Espero que este texto tenha tirado algumas de suas dúvidas e que sirva para termos tutores e criadores mais responsáveis e conscientes de seus direitos e deveres. Quero terminar com um link para a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, fornecida pelo CFMV. Boa leitura!

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O que aprendemos com a Sáti

Por Aline Pêgas

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Primeiro dia da Sáti conosco. Eu tive que ir correndo comprar tela.

A Sáti foi uma das nossas primeiras ratas. Ela, a Maya e a Kali vieram morar conosco no dia 1° de abril de 2015. Na época era dificílimo encontrar ratos pra vender ou adotar em Curitiba. Depois de bastante tempo procurando, encontramos uma clínica veterinária que criava ratos para alimentação de répteis e também os vendia como animais de estimação (sinceramente, acho que ninguém antes de nós havia pedido um rato como animal de estimação nessa clínica). Essa semana, no dia 27 de fevereiro, ela faleceu. Durante quase 2 anos a Sáti conviveu conosco, mudando pra sempre as nossas vidas. Ela e suas irmãs inspiraram a criação desse blog. Em homenagem à Sáti, vou contar um pouco da história dela e das coisas que nos ensinou. Espero que nossa experiência com ela ajude muitos humanos a se tornarem grandes amigos de seus ratos.

A Conquista

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Depois de alguns dias conosco, já estava confiante pra dormir fora da toca.

Quando você traz um rato pra casa, ele não é automaticamente seu amigo. Há um período de conquista e adaptação. Quando o rato veio de um criador responsável, que fez uma socialização adequada, é mais fácil. Mas mesmo assim, os primeiros dias são um pouco tímidos. A Sáti não foi criada pra ser um rato de casa, ela nasceu num biotério onde provavelmente era manipulada incorretamente. A sua irmã Maya já chegou aqui com a pontinha do rabo faltando. Nos primeiros dias a Sáti e a Maya tinham medo de sair da casinha. Era a Kali, mais corajosa, quem ia buscar ração no comedouro e levava pra elas dentro da casinha.

Eu e o Luiz Henrique, meu marido, havíamos lido muito a respeito de ratos antes de trazer as meninas pra casa. Um dos fatores que nos levou a querer ratos ao invés de mais camundongos foi termos lido que os ratos interagem mais com as pessoas. Aqueles vídeos fofinhos de ratos esbugalhando os olhos enquanto recebem carinho nos derreteram. Mas, as nossas meninas não eram assim. Elas pareciam muito medrosas. A Maya e a Kali se socializaram mais rápido, mas a Sáti era medrosa e mordia. O que o Luiz fez pra conquistá-la foi levá-la pra passear pela casa dentro de uma bolsinha de crochê onde ela se sentia segura. Depois de alguns dias ela começou a vir correndo pra porta quando via a bolsinha. Depois de duas semanas já subia no ombro do Luiz pra passear. Era outra pessoa. Ela nos adotou como sua família.

Eu que mando

A Sáti sempre teve uma personalidade forte. Nós a chamamos carinhosamente de baixinha terrível. Ela nunca foi a fêmea alfa da gaiola, mas não estava nem aí pra isso. A Sáti fazia o que quisesse. Com humanos era a mesma coisa. Você não podia esperar que ela ficasse quietinha no seu colo pra receber carinho, mas ela fazia carinho em você. Todos os dias durante seu passeio matutino no quarto a Sáti limpava o rosto do Luiz com a maior diligência. Suas lambidas e beijinhos eram uma forma de cuidado conosco. Sentiremos muita falta disso.

Maternidade

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Lindas borrachinhas

Em outubro de 2015 nós cruzamos a Sáti e o Odin. Eles tiveram dez lindos filhotinhos: Baldur, Frey, Frigga, Loki, Nanna, Sol, Syf, Thor, Tyr e Var. Essas são as crianças mais fofas do universo e região. Ficou claro para nós que os filhotes não herdam apenas as características físicas dos pais, mas a personalidade. Os filhos da Sáti são lindos, empáticos, carinhosos e inteligentes. Ela se dedicou a eles completamente. Os bebês estavam sempre limpinhos, aquecidos e bem alimentados.

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Ser mãe às vezes cansa

Em alguns meses a Sáti voltou a ser a menor rata da casa, com aproximadamente 220g. Seu maior filho, Baldur, tem 700g. Ela voltou a ser mãe, dessa vez adotiva. Nas duas vezes em que apresentamos meninas novas para as novas fêmeas, a Sáti as adotou e cuidou delas como se fossem da família.

Nossa pequenininha

Sábado passado, nossa pequenininha faleceu em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. No seu último dia ela estava um pouco inquieta, não quis ficar na gaiola. Ela queria ficar no colo do papai. Passou suas últimos horas no ombro da pessoa que ela mais amava. Ela sempre será amada, e suas histórias sempre serão contadas aqui. Seguem mais algumas fotos da baixinha terrível.

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Sáti subindo no colchão dois dias após dar à luz

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Isso é um espelho? O que tem aqui atrás?

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Barrigão dois dias antes de chegarem os filhotinhos

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Com o Baldur e a Nanna

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Dormindo com o Tyr

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Seus maravilhosos filhotinhos

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Já mais velha, fazendo companhia pra mamãe no sofá e comendo um pouco de granola.

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